Tapa na Orelha - Murro no coração
Ontem perdi uma das pessoas que mais admirava e respeitava na vida. Mas, por incrível que pareça, com toda a dor que eu esteja sentindo por isso, não foi o pior. O pior foi ver a pessoa que mais amo na vida, a mulher de coração mais puro e verdadeiro que o destino já colocou em meu caminho, sofrer pela perda da pessoa que ela mais amava. E eu estava de mãos atadas. Via meu bichinho chorando (ela parece um bichinho desamparado às vezes, e este é parte do seu charme) sofrer avassaladoramente por dentro e eu não podia fazer nada, não tinha poderes para ressuscitar a pessoa que ela mais amava na vida (e tinha motivos de sobra para amá-lo).
E descobri que tal dor, a de ver a pessoa que ama perder quem mais ama, é tão brutal quanto a morte.
Guilherme Moura costuma dizer que me exponho muito aqui no RecifeRock! Diz que não tem nada contra, mas acha que eu deveria ser mais reservado.
Infelizmente, sinto a necessidade de compartilhar e de gritar a minha dor para o maior número de pessoas possível. Para gente que não me conhece e que gosta de mim. E para os que não me conhecem e que não gostam de mim.
O fato é que depois de 49 dias de UTI, com esperanças comemoradas, derrotas sofridas e o triste final, minha leitura das coisas passou a ser outra. Passei a enxergar todo o resto - fora a morte e a dor que ela nos traz - contornável, menor.
Esta coluna é para servir de desabafo e falar de tolerância. Logo eu, que uso muito de intolerância aqui no RecifeRock!
Queria pedir sinceras desculpas a todos que de certa forma ofendi e magoei aqui com minhas críticas. Queria que soubessem que não foi/é pessoal. Queria que soubessem que sei que passei dos limites muitas vezes, e que escrachei muita banda/artista pelo mero prazer sarcástico e pessoal de fazê-lo, embora pensasse tudo aquilo que escrevi mesmo. Mas entre pensar e publicar para o mundo todo ter acesso vai uma grande diferença.
Espero não ter prejudicado ninguém, não ter estragado a carreira de nenhum artista, embora me sinta muito insignificante para ter tal poder, mesmo tendo consciência de que tenho o poder de falar para muitos e de influenciar alguns poucos. No fim das contas, por incrível que pareça, gostaria de ser mais tolerante. E, pior, de ver uma crítica (estou falando de toda a crítica do planeta) mais humana e menos perversa, mais construtiva e menos sacana. Enfim, mais respeitosa.
Sei que é estranho logo eu pedir tal coisa, mas hoje acho toda forma de desmoralização desnecessária, e sei que desmoralizei o trabalho (nunca as pessoas) de muita gente. Minhas sinceras desculpas.
Tenho 32 anos, e aprendi em 49 dias o que uma vida inteira não foi capaz de me ensinar, ou que eu simplismente não tive humildade e capacidade para aprender com ela. E aprendi da forma mais dolorosa, pois sou daqueles sujeitos que precisam visitar o inferno para enxergar o óbvio. E o óbvio é que a morte é maior e mais importante do que todas as ninharias que costumamos nos apegar, e que nos definimos como pessoas através das pessoas que ganhamos e perdemos na vida. E, no meu caso particular aqui no site, que ninguém tem o direito de humilhar e desmoralizar ninguém. E acabei desmoralizando indiretamente muita gente através das minhas críticas aos seus trabalhos.
No fim das contas, tive de acompanhar lentamente a morte de um ser tão especial de perto e de ver o meu bichinho sangrar por dentro para enxergar o óbvio. Precisei levar um murro no coração para que ele se tornasse um pouco mais humano. Humano como o mais humano dos humanos que já conheci. Talvez um dia eu chegue lá.
Esta coluna é dedicada a Cleto Holanda, de quem não enxerguei outro sentimento em seu olhar durante dois anos de convivência que não fosse amor, para tudo e para todos.






