
Parece mentira, mas os Devotos completam vinte anos de carreira em 2008. Alguém conhece outra banda pernambucana – fora o Mundo Livre – com tanto tempo de estrada? E no caso deles o buraco era – e ainda á – mais embaixo.
Tiveram de superar o preconceito em todas as suas formas: por serem de uma das áreas até então mais violentas da Região Metropolitana do Recife, por não serem “músicos” com formação acadêmica e, deixemos de ser hipócritas, pela aparência de Cannibal.
Gosto de contar essa história porque ela ilustra bem como Pernambuco ainda guarda alguns resquícios de subdesenvolvimento. Comprei o “Agora tá Valendo”, primeiro disco deles, em pleno Abril pro Rock de 1997, antes mesmo de ele ser distribuído nas lojas (14 reais, logo depois do show do Devotos). Passei a escutá-lo diariamente, pois já conhecia o repertório dos shows e achei fantástica a produção de Lúcio Maia. De tanto ouvir, minha mãe assimilou, e vez por outra ela se pegava cantando baixinho na fila dos bancos coisas como “o que está faltando, está faltando é hardcore…”
Corta para 1998. Minha mãe está na fila de um banco na Conde da Boa Vista. Eis que surge Cannibal, e soa o alarme da porta automática. Cannibal tira todos seus objetos de metal do bolso, mas o problema não era esse. O cinto dele, cheio de artefatos metálicos, era a bronca. O guarda foi ríspido: “tire o cinto!”. Cannibal foi óbvio em sua resposta: “se eu tirar o cinto, minha bermuda cai!”. E minha mãe, coitada, tentou ajudar. “Vocês não estão reconhecendo? Ele é um artista. É Cannibal, do Devotos do Ódio”. Ninguém conhecia. O guarda fez uma cara ainda mais feia, e Cannibal desistiu de tirar um extrato e atravessou puto a Conde da Boa Vista. Mas o pior ainda estava por vir. Minha mãe saiu do banco. Viu Cannibal do outro lado da avenida e gritou e fez sinal para que ele a esperasse. Tirou o primeiro papel que viu (um comprovante de uma coleção de livros de filosofia que eu ganhara de presente) da bolsa e disse: “por favor, você pode dar um autógrafo para meu filho?” Ele o fez com gentileza e educação. Terminada a operação, com minha mãe agradecendo e guardando o papel, eis que ela ouve um comentário de um dos passantes: “como é que uma senhora tão distinta pede autógrafo para um tipo desses?”. Ela ficou tão enojada que não conseguiu pensar em nada para responder, e preferiu não reagir.
Pouco tempo depois, o “tipo desses” era um dos orgulhos do governo de Pernambuco, recrutado como um dos artistas para rodar um comercial que exaltava as maravilhas e os talentos da terra, passando inclusive na Rede Globo, em horário nobre. Ficou tão conhecido e foi aceito de tal maneira pela sociedade pernambucana que até foi entrevistado no programa de TV do jornalista (jornalista?) João Alberto.
Olhando hoje, parece que foi fácil. Não foi. A primeira grande oportunidade só veio em 1994, quando abriram pro então promissor Raimundos, no Circo Maluco Beleza. Inesquecível a gigantesca roda-de-pogo comandada por eles. E inesquecível também o fato de eles irem a pé, carregando os próprios instrumenbtos, até o local do show. Não tinham grana para o ônibus. E chegavam até a ser discriminados nele…
O fato é que Fábio Massari viu um show deles e ficou chapado. Aliás, duplamente chapado quando soube que a banda era proveniente de um morro pernambucano. Até então, o senso-comum ditava que morro era lugar de traficante e de pagodeiro. A surpresa de Massari, justiça seja feita, era exclusivamente musical. Se esperava na época que um morro brasileiro produzisse bandas de pagode, brega, samba. Mas jamais uma de punk. Sem contar que Cannibal era a reedição mais agressiva de Clemente, dos Inocentes. Até então não existia um vocalista negro sequer no rock nacional, fora o já citado Clemente.
O primeiro disco, veja só, foi lançado depois de nove anos de carreira. Que banda esperaria tanto tempo para gravar hoje? Já teria desistido em seis meses.
Resolveram tirar o “do ódio” do nome, e aí neguinho mais xiita do que eu (é difícil encontrar, mas existe) não entendeu mais nada. O discurso era o seguinte: “vendidos. O produtor do segundo disco é Dado Villa-Lobos. Ficaram comerciais.” Nem vendidos e tampouco comercial. A banda era a mesma, a porrada continuava. Mas esbarraram no prconceito dos próprios fãs e no erro de estratégia da gravadora, que, sem planejamento adequado para eles, tratou a banda como mais um Só pra Contrariar da vida. Desde então a banda resolveu gravar seus próprios discos. Veio a ong Alto-Falante. O reconhecimento de todo o Brasil, e o exemplo de cidadania a ser seguido pelas periferias do país.
Enfim, três cidadãos que driblaram a criminalidade. Que pegaram em instrumentos ao invés de armas para fazer justiça social. Que continuam morando e trabalhando no Alto (fora Cello, que mora um pouco mais afastado hoje). Que vez ou outra ainda precisam driblar o preconceito por não serem menininhos bonitinhos.
Vou encerrar contando a história do histórico fora que Cannibal deu em Cissa Gumarães. A Globo resolveu cobrir nacionalmente a edição de 98 do Abril pro Rock. Em flash ao vivo para o Vídeo Show, Cissa resolveu entrevistar Cannibal, e começou com aquelas frescuras típicas do programa: “Ai gente, Cannibal e tal, será que ele morde?” E a resposta triunfante, em rede nacional, ao vivo: “Moerder eu não mordo, mas comer até que posso”. Fiquei ainda mais fã depois dessa. E mais fã ainda depois de ter o privilégio de conhecê-los pessoalmente. Pensa que a situação dos caras hoje é folgada? Eles conseguem tocar em todo o Brasil, menos em sua terra. Por que será? Talvez falte produtor profissional. Talvez falte local adequado. Meu palpite é que faltam as duas coisas aqui…
Parabéns aos Devotos. Poucas bandas no Brasil – e no mundo – conseguem completar duas décadas de carreira. Vocês merecem.