No ar: Coquetel Molotov 2007 (segundo dia)
Vai de couve?
Parecia show do Cordel do Fogo Encantado de tão lotado que estava o Teatro da UFPE. Os ingressos se esgotaram logo, e muita gente ficou do lado de fora tentando de tudo para entrar. Até a produção do festival parecia surpresa com o êxito, e não sabia se comemorava, se deixava transparecer um certo nervosismo ou se simplesmente preferia que tivesse menos gente no recinto. Foi de espantar mesmo, e até agora me pergunto de onde saiu aquele povo todo. E, no fim das contas, para ver uma banda cover! Como disse um amigo, só faltou chamarem o Del Rey para abrir o show do Nouvelle Vague.
O Vamoz! pegou um som triste de ruim e ainda assim conseguiu fazer um show lindo. Corajosos, tocaram em seqüência cinco músicas do novo álbum, o excelente “Damned Rock n’ Roll”. Baixou um Crazy Horse geral na banda, e ela meio que ligou o foda-se e foi tocando sem dar importância ao som precário. Resultado: ganharam a platéia na base do bom, velho e puro rock. A bateria de Pedrinho parecia um canhão de tão potente. Henrique solou lindamente quando precisou fazê-lo, e Gomão não se cabia de tanta felicidade, dividindo seu uísque com a platéia. Só na sexta música tocaram a única canção do primeiro álbum, “Beside, Infinite”, que deu um belo contraste com as porradas anteriores. Gomão agradeceu a produção, e não conseguiu deixar de desabafar “a gente esperou quatro anos para tocar aqui”. Realmente, o atraso foi grande, e teria sido perfeito vê-los abrindo para o Teenage Fanclub. Fecharam com uma versão linda de “Heart of Gold”, que apenas disseram ser uma música de um cara que era muito importante para eles, sem mencionar o nome do Senhor em vão. Impossível não rebobinar a fita até 2003, no Pátio de São Pedro, quando os vi pela primeira vez e dei graças aos céus que alguma banda pernambucana conhecia e ousava fazer uso de Neil Young em suas composições. Ele teria ficado orgulhoso ontem. Depois encontrei Gomão, meio morgado. Dei os parabéns e ele emendou. “Tu sabe, né velho?”. Sei, Gomão. Todos os defeitos técnicos de ontem só serviram para a sua banda fazer um show ainda mais foda.
Depois entrou o alagoano Wado, e a lógica acabou se invertendo. Deu sorte de pegar um som cristalino e fez uma apresentação que acabou ficando perdida na memória da noite. Era difícil alguém lembrar que ele tocou ontem. A apresentação foi morna, tímida, discreta demais, e o único momento verdadeiramente bom foi o espertíssimo sambinha “Tarja Preta”. No mais, é como se tivesse entrado mudo e saído calado.
Impressionante mesmo foi a cantora Cibelle. Munida “apenas” de um enorme carisma e de um talento sobrenatural, até as aspas dela (que fala muito durante a apresentação) foram um show à parte. Algumas delas: “Vocês me perdoam se eu afinar a guitarra um poquinho?”. E alguém da platéia, muito bem-educado, grita: “Cala a boca, porra!”. A resposta da cantora paulistana radicada em Londres foi magistral: “óxente, fala assim comigo não, cara”, carregando no falso sotaque nordestino.
“É muito bom tocar no Brasil porque eu não preciso explicar o significado das músicas”. Ainda assim, explicou todas. E, a melhor da noite: “Agora vamos falar sério”, e tascou uma versão de “London, London”, de Caetano Veloso. Deu vontade de rir, embora a sua leitura da música fosse de fato linda, assim como foi linda a sua presença de palco e espetacular tudo o que apresentou nele. Vestida de Pilatos, se ajoelhou para a produção e jurou que só iria estourar o tempo um pouquinho só. Foi a catarse. Pediu para o público pegar suas chaves para imitar o barulho da chuva com elas, e cantou divinamente sobre o efeito delas. Saiu do palco parecendo querer abraçar todo mundo, e foi igualmente abraçada de volta. Apesar de ninguém agüentar mais ouvir falar das novas cantoras “talentosas” da MPB, Cibelle realmente é um caso à parte. Chegou até a dedicar uma canção para a amiga Vanessa da Matta, que nas palavras de Cibelle “não anda, flutua”. Ontem quem flutuou mesmo foi Cibelle.
E aí veio o Nouvelle Vague. E com ele a única oportunidade em quatro anos que o público indie do festival teve de encontrar uma banda onde fosse possível cantar todas as músicas junto com ela. A fórmula parece até bem elaborada: franceses que abrasileiram em formato bossa nova clássicos ingleses e americanos dos anos 80. E o público, carente durante tanto tempo de “cantar junto” com alguma atração, caiu feito um patinho. E tome Billy Idol, Blondie e The Undertones convertidos em sambinha sofisticado para francês ver. Não sabia se sentia vergonha pelo público ou se achava tudo muito engraçado. Espertos, colocam duas francesas gostosas (desculpem a redundância) para atiçar a testosterona local. E nos brindam com mais e mais covers. Para mim, lugar de cover é em barzinho chato que ainda tem a cara de pau de cobrar couvert artístico para ouvir tamanha tranqueira. Tá, teve um momento bacana, quando tocaram uma versão sombria da igualmente sombria “Bella Lugosi is Dead”, dos Bauhaus, em versão que chegou a barrar a do Sepultura. E fecharam, lógico, com Joy Division e sua “Love Will Tear Us Apart”, cantada em uníssono por um teatro lotado. Ainda voltaram depois para mais uma, mas minha paciência para covers já tinha se esgotado. É um pouco assustador tudo isso, pois as pessoas encaram o Nouvelle Vague como um trabalho sério, e não como a piada/brincadeira que realmente é. Piada por piada, preferia o Bloco Vomit. Aliás, a versão deles para “Teenage Kicks”, do The Undertones, é infinitamente superior à dos franceses.
Isso tudo prova de certa forma uma camada de subdesenvolvimento que ainda não conseguimos romper. Até Lúcio Ribeiro (que é um excelente jornalista) só faltou dar autógrafo aqui, de tão assediado que foi. Mas eu tenho fé. Um dia a gente cresce e enxerga as coisas como realmente elas são…
No fim das contas acabou sendo a melhor edição do festival. Mesmo que a atração principal só tivesse a apresentar releituras dos outros. Lugar de banda cover é em garagem ou em boate de boyzinho. Fora do seu nicho, e em festival de grande porte, fica bem indigesto. Mesmo que francês…








