RESENHA: Nação Zumbi - Fome de Tudo

Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007/Deck disc)
Escute: Nação Zumbi - Bossa Nostra
Escute: Nação Zumbi - Nascedouro
É impressionante a capacidade que alguns artistas têm de se superar a cada trabalho, quando tamanha tarefa já parecia impossível, quando eles davam a nítida impressão de que já haviam alcançado seu limite criativo. Talvez o exemplo mais emblemático dessa “lei do eterno retorno da superação” seja o Radiohead, que consegue se reinventar desde 1997, quando o planeta inteiro achava que eles tinham alcançado o ápice (a jamais ser superado) com o genial Ok Computer.
Com a Nação Zumbi a história é semelhante, se bem que eles batem na trave em Fome de tudo. Se a primeira metade do álbum consegue deixar o ouvinte estupefato e superar o já “insuperável” Futura, a coisa desanda da metade para o fim, chegando às vezes, infelizmente, ao cúmulo da chatice.
Primeiro trabalho da banda lançado pela sua nova casa, a Deckdisc, Fome de tudo tem produção luxuosa de Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, para ficar em um só nome) e revela como Jorge Du Peixe cresceu como letrista (“a fome tem uma saúde de ferro”, extraída da faixa Fome de Tudo, é só um dos exemplos da ótima construção textual de Du Peixe aqui). Em compensação, seu vocal continua monocórdio e por vezes cansa por não utilizar a voz de outras formas.
Se a banda explode em criatividade e peso em Bossa Nostra e Inferno (melhor composição do disco, com participação discreta e certeira da cantora Céu), se perde em alguns momentos tediosos, como Toda Surdez Será Castigada,- parceria com Junio Barreto - que dá a impressão de uma música estática, que não sai do lugar.
Já o trabalho de guitarra de Lúcio Maia está ainda mais hermético (e aqui pode-se dizer que de um hermetismo um pouco mais acessível, se é que isso é possível) do que em Futura, e se revela um dos grandes trunfos de Fome de Tudo. É o caso de A Culpa, cuja guitarra de Maia aparece primeiro suingada e convencional, para depois brincar com distorções. Já Originais do Sonho trafega no território do samba-eletrônico-psicodélico, carregada de efeitos e de múltiplos significados. O típico exemplo de faixa que transita em dois territórios paralelos: o da genialidade e a do cansaço provocado por ela.
Em entrevista coletiva na véspera do PE Music Festival, Jorge Du Peixe disse que “Fome de Tudo” era um trabalho bem pop e acessível. Não acredite nisso. De pop o disco tem bem pouco. E, de acessível, menos ainda. Na verdade a Nação Zumbi vem trilhando um caminho louvável, conseguindo se reinventar desde a morte de Chico Science. Com “Fome de Tudo” eles parecem quebrar todas as barreiras, para o bem e para o mal. No fim das contas, a melhor definição aqui é: metade genial e metade chato, com a balança pendendo mais para a genialidade. Aliás, quantas bandas hoje conseguem fazer um disco tão dicotômico e capaz de confundir (e confundirá muito, acredite) público e crítica?
Escute o todo e tente esquecer as duas metades do trabalho. Mas garanto que vai ser difícil separar as coisas. No fundo, a Nação Zumbi conseguiu o que todo artista almeja: confundiu ainda mais o que já era bem confuso. E extraiu muita beleza (e chatice também) disso tudo.
![]()



Guilherme Moura disse,
em novembro 22, 2007 @ 20h39
ops. foi mal a demora em re-publicar esse texto, tava sem a capa e as mp3.
Tive que refazer o post e perdi o comentário que tinha.
Guilherme Moura disse,
em novembro 22, 2007 @ 20h40
Na capa do site tem essas 2 mp3 para download.
RicardoB disse,
em novembro 22, 2007 @ 20h56
já tô com o meu na vitrola e o CD é todo bom, digno da NZ(tá a anos-luz de qualquer outra banda neste planeta).É investimento garantido.
Leila disse,
em novembro 23, 2007 @ 14h04
Esse cd é muito bom!! realmente se superaram!
Antônio Moreira disse,
em novembro 27, 2007 @ 10h51
A Nação Zumbi se firma a cada álbum como a banda mais vanguardista de nossa música.
Sou fã do Lúcio Maia e do Jorge Du Peixe.
Vida longa para a Nação que a cada dia toma conta do UNIVERSO.
Carlos disse,
em dezembro 7, 2007 @ 18h04
achei que você pegou pesado com o termo chato.
pra mim também não é o melhor disco da Nação [para aqueles que curtem mais o início do grupo, pode ser. mas pra mim superar a sequência "Futura" e "Nação Zumbi" dificilmente eles vão conseguir...], mas não chega a ser tão dicotômico assim…
é isso aí.
Aline disse,
em dezembro 11, 2007 @ 13h21
Só senti falta de músicas mais pesadas como blunt of judah e meu maracatu pesa uma tonelada, mas com certeza tá maravilhoso o cd.
nandafox disse,
em dezembro 13, 2007 @ 14h05
Adorei o cd, acho difícil n gostar de algum cd da nação zumbi, fui pra o show da Fábrica Tacaruna(quase fui pisoteada,mas tudo bem,rsrssrsrs) adorei as novas músicas.
Amanda disse,
em dezembro 20, 2007 @ 14h57
A Nação me frustra desde o Futura pra falar a verdade. O talento dos caras e inegavel, a Inteligência também, essa capacidade de se reinventar e incrível… Mas quanta saudade do som pesado do Chico!
Mas, mesmo frustrada, acho que os caras estão certos, tem mesmo é que mudar, crescer, e como a qualidade ta aí continuo consumindo esta nova Nação.
Alexandre Pit disse,
em dezembro 20, 2007 @ 15h15
Nação Zumbi há tempos conseguiu espantar o “fantasma” de Chico. Mesmo que muita gente ainda prefira os clássicos da época do Malungo, creio que a Nação Zumbi se libertou de vez dessa amarra.
Eles seguiram uma trilha semelhante, criando uma nova linguagem e ampliando os limites do que o já morto Mangue-Beat poderia oferecer.
Com certeza, os caras são uma das melhores e mais vanguardistas bandas do Brasil.
PONTO PARA A NAÇÃO ZUMBI!
Felipe Siqueira disse,
em janeiro 8, 2008 @ 22h32
Chato ? Chamar esse disco de metade chato é brincadeira ! Mas tudo bem, opinião cada um tem a sua. Garanto que a cada audição a opinião vai ser melhor que a de antes para aqueles que disseram ser morno, chato ou qualquer adjetivo parecido.
Veja como são as coisas…pra mim esse é o melhor disco da Nação.
E “Bossa Nostra” tem tanto peso quanto “Blunth of Judah”.
Vida longa à Nação Zumbi !
sidney disse,
em janeiro 24, 2008 @ 16h44
estou fazendo parte de uma banda que curte muito nacao desdo inicio . realmente e como o colega falaou apouco ,o som de chico junto com nacao na epoca era mais pesado e estimulante . mas eles hoje alcancaram um entendimento musical fora do normal . ha quem diga que parece com bom sucesso samba clube. eu digo que eles sao unicos . e deixo aqui minhas homenajens a lucio .o cara e foda e comecei tocar guitar por conta dele . parabens
Bidowisky disse,
em janeiro 26, 2008 @ 13h58
Concordo com Felipe, afinal senso estético é como nariz, cada qual com o seu. Mas afirmar que a segunda metade do CD é chata, me parece ma vontade, ou opinião de quem ouviu pouco o disco. Afinal três das grandes canções de “Fome de Tudo” estão justamente na sua segunda parte. A música que da título ao dito cujo, embora com uma linha melódica distinta, tem a mesma pegada de ‘Blunth of Judah’.
‘No Olimpo’ não deixa nada a dever a ‘A Praieira’, um dos maiores clássicos da Nação na era Science.
Os Zumbis retomam a ciranda, mas dessa vez com uma levada que mergulha ainda mais fundo na psicodelia, ou na afrocibederlia se você preferir. ‘A culpa’ na qual você destaca a guitarra de Lucio, não tem seu mérito apenas restrito ao cada vez mais inspirado Jackson Bandeira. A canção é hipnótica e ao mesmo tempo autobiográfica. Nada do que os malungos arquitetam é gratuito. A variação de timbres soa como uma rápida releitura da trajetória do som da banda ao longo dos anos. E para o bom entendedor, “difícil é no peito matar um míssil e escapar ileso do vício”, embora cifrado, me parece um desabafo de Du Peixe no tocante a hercúlea tarefa que lhe coube, e de resto a toda banda, após a passagem de Chico para dimensão etérea. É só prestar um pouco de atenção para perceber que o caos sonoro que invade a canção por instantes remete a ‘A Day In The Life’ ((”I read the news today oh, boy. About a lucky man who made the grade. And though the news was rather sad…”), que não por acaso ao lado de ‘Tomorrow Never knows’ eram as duas músicas prediletas do caranguejo mor, do repertório dos Beatles. Já ‘Inferno’, ‘Bossa Nostra’ e ‘Onde Tenho que Ir”, do primeiro trecho da bolacha, já nasceram rumo ao destino de clássicos.
Comparar obras de arte é uma tarefa inglória e talvez sem sentido, mas coloco “Fome de Tudo” no mesmo patamar de “Futura”, ou seja, no topo. O segredo é ouvi-lo com a mente na imensidão e sem fronteiras nos jardins da razão. Talvez uma fumaça ativa contribua para ficar pesando melhor e saciar essa fome com saúde de ferro.
Caio Varela disse,
em maio 29, 2008 @ 23h11
O “Fome de Tudo” ficou bom e eu não acho que “Toda Surdez Será Castigada” ficou chata. Só não gostei da faixa “No Olimpo”, fora isso, eles trabalharam super bem. Só outro CD e DVD ao vivo pra superar o “Propagando”, porque Nação Zumbi ao vivo é indescritível.
Marcus Alves disse,
em maio 30, 2008 @ 2h47
olhe gente sinceramente eu acho que a parada é a seguinte: Lucio Maia compõem riffs maravilhosos e originais, a bateria e percussão fazem aquela batucada, Dengue tempera tudo e ai que o bicho pega: entra Jorge Du Peixe e tudo fica repetitivo e triste, pois falta uma bela melodia, algo que bate bonito no ouvido.
Fica então uma xaropada de doer os canos meu!
Tem muita música igual no repertótio da banda pois Du Peixe é limitadíssimo nos vocais e totalmente incapaz de fazer algo que encante. E fica um arrastado vocal apunhetado, uma masturbação cabeça sonzeira tribal pós mangue tipo assim sabe!
Por isso poucas músicas atualmente caem na boca do povo, geralmente as que vingamsão de outras bandas ou vingam pelos arranjos dos meninos.
Na boa, acho que a turma fica meio com medo de falar que tá esquisito o negócio e todos muito apegados a Chico Science, como se fosse pecado não gostar da NZ!
fui!
Eder Renato disse,
em junho 19, 2008 @ 16h40
E de facto uma obra-prima da nossa música,e quem não concorda está morrendo de inveja.E para isso que existe a crítica especializada,,,,para entender as coisas,,,,, quando todo mundo já entendeu. Obrigado Nação Zumbi