Archive for novembro, 2007

Cobertura Goiânia Noise 2007

Viajar até Goiânia não é tarefa fácil. Nosso vôo fez uma conexão louca em São Paulo e, no total, foram quase sete horas em transito. Chegamos num aeroporto super simples da capital de Goiás onde um receptivo do festival nos aguardava. Plaquinha e van identificada. Coisa fina, já adiantando que estávamos perto de ver uma estrutura gigante.

**

Ficamos todos no Hotel Augustus, que fica no centro de Goiânia. O lugar virou uma mini republica do rock independente nacional durante vários dias. De cara, reencontro com os colegas da Trama Virtual, Marcos Bragatto, bandas, produtores de outros festivais. Vibe perfeita era palavra de ordem no Noise. Aqui do Recife, além de eu e Guilherme, estavam lá Jarmeson (Coquetel Molotov), Paulo André (Abril pro Rock) e Roger (Sopa Diário). De estados vizinhos tinha Felipe Gurgel (Fortaleza / Soma / O Garfo), Rafael (Hey Ho Rockbar); Anderson Foca (DoSol / Natal) e acho que só. Ah, claro, o Cordel e o Mundo Livre!

**

Três dias antes o Noise foi centro de vários debates. Infelizmente perdemos todos. Dos que vieram, ficaram Dago (Trama Virtual), Miranda (Ídolos), Terence (Alto Falante) e o pessoal da Abrafin. Na sexta-feira em diante, as tardes foram ocupadas por coletivas. Assisti apenas a primeira, onde anunciavam o CASAS, Associação de Casas Noturnas no Brasil. É fruto de provocação do Espaço Cubo de Cuiabá.

A idéia deles é muito legal. Um sistema de moeda de troca para as casas de shows que não podem pagar cachê. Acaba forçando que façam uma articulação com outros agentes, como estúdios de ensaio e lojas de instrumento. Vamos ver se vai dar certo. Cinco casas encabeçam a idéia: A Obra (BH), Noise 3D (CE), DoSol Rockbar (RN), Espaço Fora do Eixo (MT) e… ehr, outro que esqueci o nome.

**

O Centro Cultural Oscar Niemeyer é foda. Lugar gigante, arquitetura impressionante, tudo preparado para o festival com banners, balões e palcos. Os shows principais eram num anfiteatro subterrâneo, os secundários num menor, armado do lado de fora. Cercando tudo estavam bares e vários stands com vendas de camisas, discos, vinis (muita raridade, a maioria bem caro), zines, apetrechos e etc. Comprei uma camisa no stand do Diabo Quatro!

Na parte de lanches, eles tinham uma novidade que precisa se implementada aqui. Um hambúrguer empanado! No lugar de pão, a cobertura empanada e, dentro, outros recheios. Delícia, comi uns 15.

O mais legal de todo esse espaço de circulação era o Rock Lab Mobile Studio. Um mini estúdio de gravação onde as bandas tinham uma hora para gravar ao vivo, in loco. Tudo sob os cuidados de Gustavo Vazques, do MQN, que depois fez a mixagem de todo o material. As bandas precisavam se inscrever antes e, de 50, eles selecionaram dez para participar da novidade.

**

Foram 41 shows e não lembro de ter visto nenhum ruim. Comentar um a um seria trabalho ingrato e repetitivo. Da sexta-feira, os melhores foram: Diego Moraes (selecionado pela Trama Virtual), o guri se garante num misto de Vanguart encontra Zeca Vianna da Volver; Superguidis, mesmo com o som quase sabotado pela mesa que tirou a guitarra e as vozes da banda; Violins, com direito a comoção geral pela galera que acompanhava da frente do palco; e Haxinixins, mods paulistas com um moog dando chamar ao rock sessentista.

Dos óbvios, que já sabia que seria bom e não provaram contrário: MQN, muito divertido ver eles finalmente em casa. Fabrício Nobre se sentia em família xingando a mãe de todo mundo. Moveis Coloniais de Acaju, com o já tradicional show foda deles; The DT’s, banda gringa de hard rock com uma vocalista que se garante MUITO e Pato Fu. Na verdade achei o show deles regular.

Do sábado, o Pelvs (RJ) surpreendeu. No show que fizeram no Coquetel Molotov eu achei eles um saco. Agora mudaram para o outro extremo do meu gosto. Mechanics fez um dos melhores shows de todo o festival, com uma performance quase escatológica. Dois caras trocavam tapas no palco antes da banda entrar. No fim, um comia o cabelo do outro. Tu agüentava? Teve gente lá quase vomitando.

Júpiter Maçã e Cordel fecharam a noite. O primeiro com um show foda de bom. Muito melhor do que fez no Recife. Flávio Basso (que antes de ser Júpiter, tocava na lendária Cascaveletes) estava mais descontraído, menos noiado, Parecia realmente interessado em tocar ali. Mas era festão do patrão (Monstro Discos), então acho que ele não queria fazer feio. Cordel fechou a noite para um público mais esquisito – vale lembrara que antes era Korzus – e mostrou que, onde eles passam, arrastam multidões.

O domingo foi o melhor dia. Não por acaso, já estava cheio antes das 20h (a média foi de três mil pessoas por dia). Black Drawing Chalks lavou a alma de um disco que eu não tinha gostado tanto. Segurou bem a onda para quem tocou em plena luz do sol. Rollin’ Chamas, The Name, Ecos Falsos, Damn Laser Vampires, Macaco Bong e Pata de Elefante foi uma seqüência inteira de bons shows. Com exceção dos dois últimos, que foram realmente excelentes. Se nos próximos meses você esbarrar com um festival com alguma dessas bandas, vá lá ver. Sério.

Essa noite também foi a do Battles. Banda norte-americana, que cresce cada vez mais no índice de notícias sobre músicas. Show fantástico, daqueles que se leva para casa e conta para os netos. Diria que foi o momento único do Noise, que nenhum outro festival vai poder ter igual. Bom de chorar.

**

Não tem essa coisa de “dia do” no Noise. Mundo Livre toca junto com Sepultura, Cordel com o Korzus e tudo rola em sintonia. Fred 04 fez metaleiro dançar; Lirinha causou o mesmo efeito boquiaberto com o público mais rock. A recepção em Goiânia é o bolo da cereja no festival. As tribos somos noise.

Cobertura: Pátio do Rock 2007 - Noite Punk/HC

Foi uma noite de punk/rock/hardcore da mais pura celebração dos estilos, de covers sem-fim de Ratos de Porão, Ramones, The Clash e até Bob Marley, de belos shows da Risko HC e da Nark e, sobretudo, de alento e de esperança para os apreciadores do bom, legítimo e velho punk-hardcore: enquanto houver moleque tirando cover (e tendo como referências) nomes como Ratos de Porão e Ramones, é sinal de que ainda há esperança no mundo.

Só um porém: a noite dedicada ao punk deveria ter sido realizada no sábado, e não no domingo. Punk, em sua maioria, é suburbano, trabalhador e pega no batente na segunda-feira. Se tivesse rolado no sábado, o público teria sido ainda maior do que o de ontem.

Uma coisa é certa: primeira banda da noite sempre se ferra. E tal máxima é universal. Seja em grandes festivais ou mesmo nos alternativos, cabe sempre às bandas de abertura tocar apenas para amigos, familiares e alguns gatos pingados curiosos. Foi o que infelizmente aconteceu com o Twenty Two, banda que segue à risca a cartilha do Green Day, e que mostrou doses equivalentes de nervosismo e competência. Têm o grande mérito de não escorregar na chatice emo, e de ao mesmo tempo de se equilibrar na corda-banba do hardcore californiano sem pender para o lado choroso da história. Enfim, mais um show que entra para a já infinita sessão do “merecia ser visto por mais gente”.

A primeira bela surpresa da noite veio com o trio Unlucky Seconds, que faz uma bela mistura de surf-music com punk. Ainda muito novos, esbanjaram técnica, ousadia e uma sonoridade muito interessante e ainda pouco explorada aqui em Pernambuco. Ainda tiveram a pachorra de mandar uma versão punk-rockabilly para “Blues Suede Shoes”, clássico de um certo rei do rock.

Mas a coisa esquentou mesmo com o destruidor Risko HC, de Jaboatão dos Guararapes. Apesar de abusar dos covers (todos ótimos, por sinal), a banda mostrou peso, fúria, intensidade e uma formação que coube como uma luva para os fãs do gênero: dois vocalistas, um gordo, responsável pelos guturais, e um magro, encarregado dos agudos, fizeram a alegria da roda-de-pogo com “Beber Até Morrer”, “Crucificados Pelo Sistema” (Ratos de Porão) e “Maconha” (Mukeka di Rato), entre tantas outras. Mas foi com o material próprio que mostraram o que tem de mais interessante: fúria adolescente transformada em música.

O mais bacana da noite: foi só o Nark começar a tocar para os caras da Risko HC entrarem na roda-de-pogo. E bastaram os primeiros acordes do Ugly Boys para a rapaziada do Nark fazer o mesmo. Só que antes de cair na farra, o Nark deu seu recado no palco. Um hardcore violento e consistente tocado por uma banda que tem tesão pelo que faz e que parece se divertir até mais do que quem está dentro da roda. Entre porradas de cunho político e social, o maior destaque acabou sendo a impagável “Comedor de Segunda”, dedicados aos caras que “já pegaram uma puta na vida’. Se continuarem no embalo, vão longe.

O clima de celebração punk só fez aumentar no show do Ugly Boys. Com ótima presença de palco, a banda sacou que o público queria mesmo era pogar e mandou uma saraivada de covers: Bob Marley, Sex Pistols, The Clash e Ramones. Teve até senhor de idade no meio da roda. Calejados, tocavam o que o público pedia (fora o indefectível “Toca Raul”) e abriram mão de mostrar mais composições próprias. Ninguém deu a mínima, e todo mundo saiu de lá satisfeito e renovado para encarar mais uma segunda-feira de aula ou de trabalho. Ou de ambos, porque a vida é mesmo punk.

Considerações finais: infelizmente não pude ir a noite dedicada ao metal. Soube, através de fontes confiáveis, que o Project 666 destruiu tudo, e que o Decomposed God fez um belo show de encerramento. A lógica também entrou na jogada: acabou sendo a noite de maior público.

Foi um dos poucos festivais em que não vi sequer uma banda ruim. Algumas ainda são meio verdes, mas possuem potencial de sobra para explorar. Fora os artistas convidados, os melhores shows que vi (sem ordem de preferência) foram: River Raid, Erro de Transmissão, Amps & Lina, Black John Band, Risko HC e Nark.
Só faltou um pouco mais de cuidado no som de alguns shows, mas isso acontece em todo festival. No mais, parabéns à organização do Pátio do Rock 2007 e às bandas que tocaram.
Já estou ansioso para conferir a quinta edição do evento.    
  

Revista Outracoisa traz cd com as bandas do XIII Goiânia Noise

Outra Coisa 22
Revista OutraCoisa + CD - R$ 16,90

Faixas
1) Nega Ivete - Mundo Livre Sa
2) Freedom – The Dts
3) Pedra E Bala - Cordel Do Fogo Encantado
4) Wooo - Pato Fu
5) Beatle George - Jupiter Maçã
6) Climax - Mechanics
7) Big Black Boat - The Legendary Tigerman
8) Cobra - Mqn
9) Beer And Flesh Meat - Sick Sick Sinners

10) Hey - Pata De Elefante
11) Manicômio - Violins
12) Superdreams Last All Summer Long - Motherfish
13) El Genio De La Soledad - Rubín
14) On Fall - Barfly
15) Mas Do Que Isso - Superguidis
16) Tiro De Festin - Valentina
17) Nada Não - Ecos Falsos
18) Por Que Será - Rollin’ Chamas
19) Matei O Prefeito - Sangue Seco
20) Legs Don’t Lie - Black Drawing Chalks

EDITORIAL
Se você nunca foi a Goiânia, não sabe o que está perdendo em termos de rock. Uma matéria não será suficiente para dar esta idéia. Mas que o texto de Marcos Bragatto pode ajudar, ah, pode. Muito. Conversando com alguns dos sujeitos que puseram a cidade no mapa roqueiro do país, ele abre para todos nós um pouco da história do lugar que muita gente chama de “a Seattle brasileira”. Para quem acha estranha a comparação, vale a explicação: foi da gelada Seattle que saíram as bandas que mudaram, coisa de dez anos atrás, a face do rock. Na linha de frente, estava o Nirvana. Caiu a ficha? No caso da nossa própria história, não há exatamente uma banda capitaneando tudo. E isso é bom. Quer dizer que a cena é rica como um todo. Leia a matéria, leia a matéria…
A maneira nova como os artistas lá na região centro-oeste estão encarando o trabalho é determinante. Não querem tocar/ficar só na garagem. Uma nova mentalidade está no ar. E chega aos palcos. De lá e de outras praças, como Fortaleza e Uberlândia – onde cobrimos eventos recentes e comprovamos que as pessoas estão preocupadas, sim, em exercitar manifestações artísticas, mas… de forma organizada, profissional, séria e diversificada. Em vez de reclamarem da falta de dinheiro, arregaçam as mangas e trabalham. Tocam e trabalham. Divertem-se e tornam viável a produção musical. É assim mesmo que tem que ser.
É sempre bom quando surge gente inquieta, querendo mudar. Manter a inquietação, no entanto, nem sempre é fácil. Ezequiel Neves parece ter conseguido. Basta ler o pingue-pongue com ele para entender por quê. Boas histórias não faltam a este veterano. E por falar em inquietação, nesta edição a gente traz uma pitada de ficção. Além de ter colaborado com um texto sobre o Cravo Carbono, do Pará (outra cidade que tem dado o que falar, em matéria de música), Caco Ishak nos mandou uma dose de literatura. Com uma linguagem, digamos, cortante e referências capazes de agradar roqueiros e “doidos” de um modo geral, o escriba contribuiu para fazer desta uma edição inquieta.
Inquieta e plural: Bárbara Rosa escrevendo sobre moda, Henrique Inglez trocando idéias com Sérgio Dias para saber sobre como vão ficar – e se vai mesmo ficar – os Mutantes, Pedro De Luna dando suas dicas de quadrinhos… De volta de Rondônia, Tiago “Tacacá” Velasco contando um pouco da história da viagem que fez para cobrir um festival lá em cima; e também Tico Santa Cruz, da banda Detonautas, dividindo – num artigo – um pouco do que se passa em sua cabeça.

A todos, um abraço inquieto,
Adilson Pereira
P.S.: O CD desta edição é uma coletânea de bandas inquietas, vindas de… Adivinhem!

Conheça as bandas da Noite Punk/HC do Pátio do Rock 4

Twentyy Two (divulgação)
TWENTY TWO

Escute: Twenty Two - Bring Us Down

Release: Twenty Two é uma banda formada em 2005 por ex-integrantes da extinta Burp (2000-2005). A primeira EP, intitulada “What Happened to Music?” (2007), tem 7 faixas todas com letras baseadas em críticas sociais e experiências pessoais. O som é basicamente a mistura do hardcore punk melódico californiano com o sueco, incluindo influências brasileiras como Dead Fish , Wacky Kids e Dead Nomads. Em suma, guitarras e baixo marcantes, bateria acelerada e vocais contagiantes.

Contato: 9922.5914 (Felipe Ayres)
E-mail: twentytwoband@hotmail.com
Links: www.myspace.com/twentytwopunks

Unlucky Seconds (divulgação)
UNLUCKY SECONDS
Escute: Unlucky Seconds - Walking Piece Of Shit

Release: Unlucky Seconds é um trio recifense de punk rock com influências grandes de Surf Music, Rockabilly e da Bubblegum Music dos anos 60.
Ainda em 2004 eles gravaram o single “Bubblegum in your mouth”, que teve participação na coletânea “Punkrock a la carte”, e em 2005 gravaram algumas outras como “Summer Drugs” e “I Don’t Care About You”. Desde então, 3 anos se passaram junto com 3 diferentes bateristas, e a banda já de saco cheio do fracasso, voltou à ativa com Renato na bateria.
Foi com essa formação que eles gravaram o EP “Keeping The Beat” entre abril e maio de 2007, esse EP contém as faixas “Summer Drugs”, “I Got My Lucky Time”, “Monday Night” e “Walking Piece Of Shit”. Elas expõem um pouco das idéias e ironias dos integrantes com relação ao mundo em que vivem, e as pessoas que o habitam.

Contato: 3423.4080 / 8875.1828 / 8809.0089
E-mail: unluckyseconds@hotmail.com
Links: www.myspace.com/lethalvirus
www.tramavirtual.com.br/artista.jsp?id=304

Risko HC (divulgação)
RISKO HC

Escute: Risko HC - Guerra

Escute: Risko HC - Capeta Mariano

Release: Banda de Hardcore de Jaboatão dos Guararapes. Criada em julho de 2006 com letras que falam desde a atual crise mundial, politicos corruptos até o papagaio do vizinho. Principais influencias: Mukeka Di Rato,Ratos de Porão, DFC…

Contato: 9158.7578 (Leo) / 8732.0688 (Gordo)
Links: www.myspace.com/riskohc
www.fotolog.com/riskohc

Nark (divulgação)
NARK

Escute: Nark - Quando

Release: Cansados de ouvir a velha porcaria pop e suas variações no rock, a proposta da NARK é fazer um punk rock seguindo uma linha das antigas, cortando as frescuras, deixando as músicas bem simples, curtas e diretas, como o rock realmente deve ser.
A banda surgiu em abril de 2004 nos buracos do Dom Helder, periferia de Jaboatão dos Guararapes, contando com Wendell no vocal e guitarra, Danylo no Baixo, Ruan na guitarra e André na bateria.
A nossas influências são Ramones, Rancid, Devotos, Misfits e Bad Religion.

Contato: 8824-1186/3465-7811 (Danylo)
Links: www.tramavirtual.com.br/nark
www.fotolog.com/banda_nark

Ugly Boys (divulgação)
UGLY BOYS (BANDA CONVIDADA)

Release: Ugly Boys teve inicio em 1998 com intenção de fazer um punk rock com letras fortes e positivas. Em 1999, gravou seu primeiro demo (The Radio) com musicas que variavam do português para o inglês e em 2000 deram inicio ao Farinha do Rock criando um espaço pra shows e encontro
Links: n/d

Serviço:
Pátio do Rock 4 - Noite Punk/HC

Quando ? 25 de Novembro (Domingo)
Onde ? Pátio de São Pedro (Centro/São José)
Quanto ? grátis
Quem ?
18h00 Twenty Two
18h40 Unlucky Seconds
19h20 Risko HC
20h00 Nark
20h40 Ugly Boys (BANDA CONVIDADA)

Cobertura: Pátio do Rock 2007 - Segunda Noite Rock

Aos cínicos de plantão: se vocês esperam encontrar nas linhas abaixo insultos gratuitos e “inteligentes”, críticas impiedosas, esculhambações com altos graus de sofisticação e destruição em massa de reputações artísticas por parágrafos seguidos, desista da leitura agora mesmo. Ontem passei a noite inteira procurando defeitos. E simplesmente não os encontrei. Com exceção de alguns vacilos aqui e acolá na qualidade do som, foi tudo perfeito. Até o reggae, ritmo que costuma me tirar do sério pela eterna repetição de dois temas (Jah e sua erva milagrosa) desceu redondo com o pessoal da Ramma Seca. E finalmente consegui enxergar em China algo diferente da imagem que fazia dele: a de um sujeito do hardcore perdido na MPB. Ele provou ser bem mais do que isso.
Aliás, há tempos que não testemunhava um festival com um nível tão elevado – e jovem – em sua programação. Coisa fina mesmo. Pena que pouca gente viu…(se bem que o show de China levou um público numeroso ao Pátio de São Pedro).

O ótimo Júlia Says acabou mostrando que é tão bom ao vivo quanto em seu EP de estréia. A dupla formada por Pauliño (guitarra e vocais) e Anthony Diego surpreendeu o público com um som nervoso, pesado, cheio e vibrante. Com o auxílio de um técnico de som nos bastidores, descarregaram camadas de eletrônica misturadas com guitarras distorcidas e letras de uma crueza que podem passar a falsa idéia de simplificação. O destaque ficou mesmo para a excepcional “Mohamed Saksak”, que ganha ainda mais corpo em sua versão “in loco”.

Um conselho ao pessoal do Amps & Lina: de agora em diante, ao preencher fichas de hotel, formulário de imposto de renda e coisas do gênero, no espaço em branco reservado à profissão, cravem a seguinte palavra: artista. É o que vocês são. O que já era lindo no EP “Curva e Linha” torna-se mágico ao vivo. A vocalista Luciana Medeiros se agiganta (pequenina que é) no palco. A banda transforma ruído em arte, “barulhinhos eletrônicos” em música, e ousa casar violino com distorção. Fico imaginando a cara que o Fábio Massari faria ao vê-los. Destacar um só momento do show seria injusto, pois o todo poucas vezes se fez tão todo como no show deles. Só para me contradizer, a voz de Luciana em “Deja Vu”, acompanhada de instrumental tão suave, refinado e agressivo, acaba levando o ouvinte à outra dimensão. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que eles garantiram um lugar em algum dos grandes festivais de 2008. Resta saber em qual deles.

Depois o tremendo contraste. Uma banda de blues formada por três roadies de profissão que deve ser melhor do que todas as bandas para quem trabalham e já trabalharam, a Black John Band. O fato é que Joseilton Lima (baixo), Jorge Romão (guitarra e voz) e Emerson Figueiredo (bateria) deram uma aula de blues, tocaram como se estivessem no quintal de suas casas e mandaram ver belíssimos instrumentais, como “Madrugada São José” e “O Anjo”. Mas foi na espertíssima “Emparedada da Rua Nova”, em que Romão assumiu um voz rouca típica de blueseiro, jogou sua guitarra no chão, pisoteou a coitadinha e teve arroubos vocais dignos de um blueseiro nascido na outra América que a banda teve seu ápice. E que ápice!

Já o Ramma Seca é responsável por uma separação semântica que eu julgava impossível (exceção feita à Bob Marley): a das palavras “reggae” e “chato”. Com uma sonoridade envolvente, criativa, e letras que fogem aos lugares-comuns do gênero, a banda provou que o reggae não precisa se limitar a poucos e repetitivos acordes. Sem contar que as letras são incrivelmente boas. Se você é fã do gênero, não deixe de conhecê-los.

Me rendo: “Simulacro” é um baita disco, e seu show é muito bom. China mostrou que, além da já sabida ótima presença de palco, também é um grande compositor e letrista de mão cheia. E finalmente está adaptando sua voz roqueira para o novo formato que abraçou. O resultado de tudo isso é uma apresentação coesa, em que dosa nostalgia e modernidade em quantidades certeiras. Seja na releitura do clássico da dor-de-cotovelo “Alguém me Disse”, de Jair Amorim e Evaldo Gouveia,(imortalizada, entre outras, pelas vozes de Maysa e Gal Costa) ou na genial de próprio punho “Todo Malandro tem Seu Dia de Otário”, composição feita e dedicada, segundo China, ao ex-jogador de futebol Zé do Carmo. Demorei a reconhecer o talento de China, mas ele é inegável hoje. Uma ex-pedra bruta que foi finalmente transformada em jóia rara.
Sem mais o que dizer, termino por aqui.

Sem rancores, minha criança…