Pitty está cansada do papel de Pitty. Sua performance no Clube Português deixou claro que ela já não se sente confortável no papel de principal estrela do rock nacional, que não tem mais tanta paciência assim com os fãs e que no fundo parece estar louca de vontade de chutar o balde, mandar tudo às favas e começar do zero, voltar a fita e fazer tudo diferente…
Mas comecemos pelo começo…
Os portões do Clube Português foram abertos pouco depois das 20h. Uma fila imensa de adolescentes se estendia da Av. Agamenos Magalhães e dobrava o Mc Donald’s, dando a nítida impressão de que o local teria sua lotação esgotada. Apesar dos 1.200 ingressos vendidos antecipadamente, não foi o caso. Ainda que o “estouro da boiada” assustasse a princípio: adolescentes de preto correndo para frente do palco, alguns munidos com presentes para seu objeto de adoração, como bonecas e cartas com quilométricos “eu te amo”. Muitos pais acompanhando as filhas, boa parte deles constrangido, dando a desculpa da vez: “sou pai, só vim por causa da minha filha”. E, melhor de tudo, os guris acabaram se revelando um público educado e extremamente receptivo com as atrações de abertura, que pouco tinham a ver esteticamente com a roqueira baiana – exceção feita a Carfax -.
Nem o som local que amplificava em volume máximo o In Rainbows, do Radiohead, causou estranhamento. Tampouco a atração mais “disforme” da noite, o River Raid, teve problemas com a platéia. Munidos de três guitarras e com frases de efeito tipo “é rock na veia”, conquistaram fácil o público, mesmo com uma sonoridade que contrastava em peso e volume com a atração principal. Banda que trafega entre o pop e o rock um pouco mais pesado, o River Raid dá a impressão de prometer muito mais do que acaba cumprindo. Suas músicas sugerem um clímax que não chega nunca, e a sensação que passa é a do puro desperdício: não dá para entender bem o que três guitarras fazem ali, já que elas não mudam muita coisa no resultado final. É uma banda competente, mas que poderia render muito mais com a formação que apresenta. No fim das contas, o River Raid teve a recepção mais fria da noite, ainda que tenha agradado a gurizada.
Na seqüência veio o rock duro do Vamoz!, que foi muito bem assimilado pelo público. Ciente de que estava tocando para uma platéia que não era a sua, Gomão caprichou na farofa: fez pose, quebrou a corda da guitarra, esbanjou simpatia e conseguiu até o acompanhamento de palmas em uma das músicas. Os melhores momentos acabaram vindo com “Big League”, “Can I Drive?” e “Damned Rock n’ Roll”. Show correto, mas extremamente deslocado, no local e na companhia errados.
Quem pegou carona legal no público de Pitty e se deu muitíssimo bem foi a Carfax. Sabendo que o jogo valia muito, entraram em cena esbanjando disposição, carisma e garra, cantando com a alma e se aproveitando ao máximo da arrebatadora receptividade do público. Abriram com “Ainda Queima”, principal hit. Mas foi com a nova “Yeah, Yeah, Yeah!” que tiveram seu apogeu: todo o Clube Português cantando o refrão “Eu falo mais alto para você entender”, que acabou se convertendo na síntese do show deles: falaram muito alto e foram generosamente entendidos. O final, que beirou a catarse, veio com uma versão repaginada e cheia de efeitos para “Pega Ladrão”. Lindo de ver…Ganharam a noite e de tabela o público de Pitty.
Mas a noite era indiscutivelmente dela. Mal começou a tocar, e a invasão tomou conta do palco. Parecia cena de clipe trash: mocinhas de saia com as perninhas balançando sendo retiradas nos ombros dos seguranças. As músicas eram cantadas em uníssono uma a uma, e os seguranças precisavam justificar em dobro o pão nosso (deles) da noite: não tiveram um só instante de sossego. Envergando uma guitarra, Pitty foi fortemente agarrada por uma fã, que só desgrudou dela depois que os seguranças intervieram. Na mesma hora soltou um PUTA QUE PARIU que exprimia todo o seu desconforto com a posição de musa do rock. Após a música, o recado revoltado para os fãs: “Existem várias formas de demonstrar amor, e a maior delas se chama respeito! Só para explicar o que aconteceu aqui…” E seguiu com seu repertório de hits: “Anacrônico”, “Admirável Chip Novo”, “Equalize”. E a cada uma delas Pitty se distanciava cada vez mais de seu refrão mais conhecido, aquele do “o importante é ser você…”, de “Máscara”. Até que tentou se posicionar em alguns momentos, vertendo Bad Brains em ritmo de reggae e no cover de “Highway to Hell”, de um AC/DC que poucos pareciam conhecer ali.
O público de Pitty não é o mesmo de quando ela tocou há três anos no Abril pro Rock. Aquele cresceu, e hoje deve preferir Chico Buarque ou até um metal extremo. O atual está na faixa dos 14 aos 17 anos e é predominantemente feminino, e leva o refrão de “Máscara” às últimas conseqüências: menina beijando menina e menino se pegando com menino, em uma prova cabal de que o amor fala mais alto, mesmo que seja “estranho ou bizarro”. O que no fim das contas não é. Estranho e bizarro mesmo é constatar que Pitty cansou da personagem que ela mesma criou.
E a pergunta que não quer calar é: até quando ela vai conseguir renovar seu público? Porque o do Clube Português, daqui a três anos, não vai estar nem aí para ela, e sentirá até mesmo uma ponta de vergonha por um dia ter sido fã de Pitty. É assim que o jogo funciona. Mesmo (e principalmente) que seja estranho, bizarro, bizarro…