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Cobertura: No Ar: Coquetel Molotov - Segundo dia

O texto sobre os shows das bandas da sala Cine-Pe será escrito por Breno Mendonça, e estará no ar em breve aqui.

 

Segundo dia de festival e novamente tudo correu tranqüilo, não fosse um pequeno detalhe: os suecos do Club 8 demoraram um bocado para começar seu show na sala Cine PE, o que irritou um pouco o público e fez com que sua apresentação (muito boa, por sinal) ocorresse quase que simultaneamente à de Catarina. Como as leis da física ainda não permitem a ninguém estar em dois lugares ao mesmo tempo, acabou se dando mal quem optou pelo confuso show de Catarina.

No mais, tudo perfeito. Som funcionando bem, iluminação linda e público disposto a conhecer coisas novas. Aliás, era o primeiro festival de muita gente ali, devido ao alto número de adolescentes que mal pareciam saídos dos quinze anos. Talvez seja o fenômeno Mallu Magalhães. Aliás, vale a pena gastar algumas linhas com ela.

Mallu é uma criança (basta conversar um pouco com ela para se convencer disto) que vem sendo engolida pelo showbizz. E só resta torcer para que essa mudança abrupta em sua vida não prejudique sua saúde e sua personalidade. Porque não dá para passar incólume por tamanho turbilhão em espaço tão curto de tempo. Na verdade, acho bastante injusto criticar alguém de 16 anos que até pouquíssimo tempo tocava no quarto de sua casa e de uma hora pra outra foi alçada a condição de nova grande descoberta da música brasileira. É complicado porque estamos diante de um talento que ainda precisa ser bastante lapidado. E, por outro lado e ao mesmo tempo, boa parte da graça reside justamente nessa falta de lapidação, em sua espontaneidade “bruta” que destoa de toda a classe artística já calejada e veterana na cínica dança da indústria do entretenimento. Não deve ser fácil, da noite para o dia, passar da condição de fã para parceira de seus ídolos. O choro dela abraçada com Marcelo Camelo no palco ilustrava claramente isso. Ela talvez ainda esteja na fase de achar que tudo não passa de um sonho, e o medo de acordar deve ser grande. Deixemos então a menina crescer para mostrar ao que realmente veio. Por enquanto, o que ela já fez está de muito bom tamanho.

Catarina de Jah, segundo release, é olindense, tem 28 anos, é DJ e agora cantora. É preciso enfatizar bem este AGORA. Ela faz uma mistura confusa de ritmos latinos e regionais tentando dialogar com uma certa contemporaneidade. É insegura no palco, e não resite às provocações da platéia. Ao ouvir “Toca Ana Julia”, devolve com um “Eu não sei tocar Los Hermanos, não!”, sem esconder uma certa irritação. Ao tentar soar engraçadinha, pede desculpas ao público em nome de suas dançarinas – que, obviamente, não devem existir -, e diz que elas estavam com medo de encarar a platéia indie do festival. “Elas juraram que foi um problema com o mega-hair”. E, querendo ironizar o público presente, tratou de brindá-lo com piadas intraduzíveis. “Outra síndrome do verão é a síndrome de Mario de Andrade”. Silêncio mortal”. “Ri, minha gente”. E, finalmente, rimos por ela aceitar sua derrota como humorista. Talvez fosse melhor colocá-la na Sala Cine-PE. Ficou evidente que o AGORA cantora é bem AGORA mesmo. É preciso dar mais tempo a ela.

Algumas fontes bem confiáveis garantiram que o violinista Owen Pallett, do Final Fantasy, nada tem a ver com o Arcade Fire. Que apenas teria feito uma breve colaboração com o grupo canadense, mas que não seria, como foi vendido ao público, o “violinista do Arcade Fire”. Não consegui tirar a dúvida nem com ele nem com a produção do Coquetel Molotov. Falha grave minha, reconheço. Fica aqui o espaço aberto para a produção do festival esclarecer minha incerteza. De qualquer forma, o show dele foi bem bonito, transitando no limite da fronteira entre o golpe e a genialidade. Ele toca por cima de bases pré-gravadas, o que dá a errônea impressão de que qualquer um poderia fazer o mesmo. Mas quando seu violino fica em primeiro plano, constatamos que estamos diante de um músico de outro planeta, dono de um talento incomensurável. E, o mais bacana, foi aplaudido de pé ao final de seu show intimista, ousado e que funcionou às mil maravilhas num teatro. Só que desconfio que boa parte deste entusiasmo todo foi creditada ao seu “vínculo” com o Arcade Fire.

Criança ou não, Mallu Magalhães já superou a esfera virtual e hoje é uma artista de verdade para o público. Foi muito tietada nos bastidores, distribuiu autógrafos, tirou fotos com fãs, dividiu as atenções no backstage com Marcelo Camelo. Seu show foi extremamente competente. Ela não vacilou um só minuto (temi que ela não segurasse a onda ontem), e, em seu jeito atabalhoado e fofo (perdão, a palavra é essa mesmo), tirou, sabe-se lá de onde, a seguinte frase: “eu queria chamar ao palco dois bancos e o Marcelo Camelo”. E a histeria estava novamente armada. Juntos, cantaram “Janta”, acompanhada pelo público como se fora do repertório do Los Hermanos. Desta vez, Mallu conseguiu conter um pouco a emoção, e não desabou como no dia anterior. No mais, ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa sobre Mallu. É uma menina de 16 anos dona de um talento e carisma inquestionáveis. O tempo se encarregará de dizer qual será o lugar dela quando crescer e não tiver mais lição de casa para fazer.

Não há muito para falar sobre o show do sueco Peter Bjorn And John. Trata-se de um trio competente, de boa pegada roqueira e que possui um belo show. Boa parte do público já havia ido embora quando eles entraram em cena, e a parte que ficou os recebeu muito bem. Deixaram o hit “Young Folks” para a parte final de sua apresentação, e ainda voltaram, entusiasmados, para um longo bis. Belo show, mas, no fim das contas, o que vai ficar na memória do público nesta edição do No Ar: Coquetel Molotov são as apresentações de Marcelo Camelo e de Mallu Magalhães. E com toda justiça.

Cobertura: No Ar: Coquetel Molotov - Primeiro dia

Os textos sobre os shows da sala Cine PE serão escritos por Breno Mendonça, e estarão aqui no ar em breve.

Se existe um festival no Brasil que cresceu ano a ano - e hoje merece todos os elogios do mundo -, ele atende pelo nome de “No Ar: Coquetel Molotov”. Ainda que peque na escalação e que force uma barra tremenda para emplacar bandas suecas em terras brasileiras (de banda ruim a Suécia está cheia), os acertos acabam sendo mais relevantes do que as falhas, caso dos gols de placa ao apostar em Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. Sem contar que a estrutura é de primeiro mundo: o som foi impecável em todos os shows, a iluminação estava perfeita (dá-lhe, Albert!), e é de encher os olhos ver o Teatro da UFPE lotado, abarrotado de gente. Trabalho de formiguinha que começou lá atrás, em 2004, na primeira edição do evento.

O primeiro dia do “No Ar: Coquetel Molotov” serviu para cravar de vez o nome de Marcelo Camelo como principal artista brasileiro de sua geração. Camelo é hoje uma espécie de Chico Buarque dos anos 00: todas as meninas querem dar para ele. Os caras querem ser iguais. E os gays não se envergonham de gritar “lindo!” e “gostoso!” durante toda a apresentação dele. E, analisando por outro prisma, bem menos passional, tal tietagem é justificável, emblemática e merecida no caso de Camelo, um compositor talentosíssimo, bom músico e excelente letrista que conta hoje com o apoio da melhor banda brasileira da atualidade, a paulistana Hurtmold. Não bastasse tudo isso, e o sujeito possui um carisma ainda maior do que a quantidade de fãs que entoam todas as suas canções em uníssono. Trata-se de uma seita: é questão de aceitar ou não.

Aos shows: o duo pernambucano Júlia Says fez um show que primou pelas novidades e pelo bom aproveitamento da estrutura do palco do Teatro da UFPE. Mostrando um estilo desencanado de ser e viver, o guitarrista Pauliño entrou no palco sem camisa, e assim levou o show até o final. Acertaram bem a mão ao despejar peso da guitarra e da programação, e mostraram ótimas canções, como a bem trabalhada “Intro-Mental” e a excepcional “Aos Segredos”, que fechou o show. Permanecem pecando em alguns momentos, sobretudo quando a frágil voz de Pauliño surge em primeiro plano, defeito que aos poucos vem sendo corrigido ao cobrirem seus vocais com efeitos eletrônicos. E a execução de “Mohamed Saksak”, com telão exibindo o clipe da música, beirou a perfeição. O Júlia Says galgou degraus altos em curto espaço de tempo. Ainda há muito a ser melhorado, mas é visível o quanto de talento existe ali. O público os recebeu com simpatia, mas a verdade é que o show não chegou a empolgar muito.

A empolgação começou a vir aos poucos, e se instalou de início na boa apresentação do cearense Cidadão Instigado, que tocou de última hora no lugar do Vanguart (que perdeu uma oportunidade de ouro de expandir seu público por essas praias). Liderados pelo guitarrista Fernando Catatau, uma espécie de Odair José intelectualizado, a banda contou com coral da platéia em boa parte de seu show, casos de “O Pobre dos Dentes de Ouro” e na deliciosamente brega de beira de estrada “O Tempo”. Foram bastante aplaudidos no final.

Ê, Suécia! A tal de Shout Out Louds faz hoje o que o The Cure já fazia muito melhor nos anos 80. Ou seja, pura cópia da banda de Robert Smith, mas tão descarada, tão deslavadamente cara-de-pau que dá até vergonha. E, quem diria, eles possuem até um numeroso neo-fanclube no Recife, pois não eram poucas as pessoas que bradavam as letras do grupo a pleno pulmões. Mas, cá pra nós, não passa de um pastiche bem sem-vergonha do The Cure. Para aqueles que preferem a cópia ao original. E parece que não são poucos. Paciência…

A noite era toda dele. Órfãs do Los Hermanos e fãs da nova safra de Marcelo Camelo se espremiam por todo o teatro na tentativa inútil de conter os nervos diante da espera do ídolo. Desesperada, a produção do festival sofria para convencer o público a permanecer sentado, milagre que acabou por fim operando: apenas no bis a platéia se soltou e levantou para dançar. E, faça você parte ou não da seita “camelônica”, a verdade é que foi um show e tanto, o primeiro da “digressão” pelo País. Segundo declarou, para delírio dos fãs, a estréia do show “tinha que ser aqui, tinha que ser hoje e tinha que ser com vocês”. E nada do que ele fala parece premeditado, calculado ou dito só para agradar. Ali está um ser de dissimulação zero.

Ele entra no palco, fica meio sem jeito com a saraivada de palmas que inunda o teatro, pega o violão e dedilha “Sou”, cantada por parte bem numerosa da platéia. Depois, chama a excelente Hurtmold, empunha uma guitarra e leva “Téo e A Gaivota”. E o “estrago” estava feito: a mesma devoção dedicada ao Los Hermanos é renovada na carreira-solo de Camelo. A histeria segue com “Tudo Passa”, dos belos versos “eu, você e todos os encontros casuais/os ais e os hão de ser/e todos os casais também/ olha, acho até que quem achou que nunca ia/ esse ia se espantar de ver que o ódio e o amor/ e até eu vou pra ver no que vai dar/ a massa, a moça
e até esse pra sempre tudo passa”. Parece retalhos de letras, mas todos cosidos de maneira a dar significados ocultos às partes e interpretações pessoais ao todo. E, quem diria, o recém-lançado “Sou” já está na boca do povo.

O momento mais emocionante da noite se faz quando Camelo chama Mallu Magalhães ao palco, amiga que, nas palavras dele, “mudou minha maneira de ver a música, mudou minha maneira de ver a vida”. Mallu entra, abraça Camelo e desata no choro de uma criança de 16 anos que até anteontem era fã do Hermano, e que hoje vive o sonho dourado de menina de dividir o palco com o ídolo. Quase não consegue dedilhar o violão ou cantar de tanto que chorava, e a impressão que ficou é que o próprio Marcelo desabaria no choro a qualquer momento. Mallu saiu correndo após sua participação, e o show prosseguiu em clima de uníssono até o fim. Após uma certa hesitação, Camelo volta para o bis, banquinho e violão e, cartada de mestre, ataca com “Tchubaruba”. Mallu corre para cantar novamente ao lado do ídolo, desta vez uma canção dela, e o momento fofura estava instaurado de vez. Camelo então pede licença ao Hurtmold, que tomava posição para acompanhá-lo novamente, e diz que o clima de improviso estava tão bonito que preferia continuar assim por mais um tempo, banquinho, violão e todas as vozes do teatro. Ao Hurtmold restou esperar respeitosamente o término da catarse para entrar em cena novamente, como figurantes de luxo.

Aos fãs: Camelo está de volta em sua melhor forma, e o show de seu “Sou” é ótimo. Aos que não gostam: vai ser difícil se livrar dele no próximo verão. Às seguidoras: Aleluia, irmãs! A seita ressurge…Para o bem e para o mal. Para cristãos e ateus (licença, Zeroquatro). Batizados e pagões. Resta escolher o seu lado e ser feliz.

Entrevista - Júlia Says

Na edição passada do No Ar: Coquetel Molotov, dois carinhas com uma camiseta escrita Júlia Says estavam distribuindo eps da banda entre jornalistas e produtores. Um deles, Pauliño, também guitarrista do A Ponte, ainda comentou comigo: “vacilo não ter nenhuma banda aqui para distribuir material”. De lá pra cá, o duo formado por ele (guitarra/voz/programações) e Anthony Diego (bateria) já tocou no Pátio do Rock, Rec-Beat, FIG, excursionou pelo país e agora toca, nesta sexta-feira, dia 19, no palco principal do mesmo festival em que distribuíam material no ano passado. Confira abaixo a entrevista feita por e-mail com Pauliño e Anthony Diego, também conhecidos como Júlia Says.

Na edição passada do No Ar: Coquetel Molotov vocês tinham acabado de formar a banda e estavam distribuindo material nos intervalos do show. Nesta edição, tocam no palco principal. Qual a sensação?
Pauliño:
Como diria Mr. Trummer: “Com gratidão, satisfação, felicidade”. Estamos muito felizes, de lá pra cá muita coisa aconteceu, crescemos muito, mas o frio na barriga está perturbador esses dias.
Anthony Diego
: É como tenho falado… vai ser bem especial, bem emocionante. Passa todo o filme na cabeça. Lembro muito bem de todos os detalhes, a correria pra terminar as músicas, a agonia de fazer a arte do EP no dia do festival, e a volta pra casa! (risos). É massa você saber que há um ano fizemos isso, e hoje, estamos participando de grandes festivais! Massa mesmo!

Como será o show?

Pauliño:
1º: Vai ser massa!
2º: Vamos tocar pela primeira vez só músicas nossas (sem as versões de Madonna, Gorillaz ou A Ponte que costumamos fazer).
3º: Teremos a participação MAIS DO QUE ESPECIAL do Guilherme Mendonça, do Guizado - www.myspace.com/guizado (tocando trompete em uma das músicas).
4º: Vamos ter músicas novas: “Intro Mental” e “Salto Alto”, que já estão no nosso myspace.
5º: Projeções de Scifi e do novo clipe (da música “Salto Alto”, dirigido por Igor de Lyra).
6º: Cenário das meninas da Damaz (Já que é um teatro, temos que aproveitar o espaço, né?).
7º: Vou estar comemorando meu aniversário!
8º: E se Jesus ajudar, vamos estar com o EP “Menos é Mais“, pra distribuir e vender também.

Anthony Diego: Não preciso falar mais nada! Espero que todos que curtem o som, ou não, compareçam… Vai ser um show bem especial!

Dos grandes festivais do Recife, vocês só não tocaram ainda no Abril pro Rock. É uma meta para 2009?
Pauliño:
Queremos muito tocar no Abril Pro Rock, estamos correndo atrás!
Anthony Diego:É uma de nossas metas sim. Gostaríamos muito de participar do APR, e esperamos que ano quem vem role! Assim como outros grandes festivais!

Acha que um show no teatro favorece o tipo de som que vocês fazem?
Pauliño:
Temos que saber aproveitar e usar a nosso favor as características de cada palco, nosso som é bem diversificado, acredito que o público vai estar mais atento do que num show aberto ou num inferninho.
Anthony Diego:
Gostamos de tocar em teatro, como também gostamos de tocar em show aberto. São dois palcos bem diferentes, mas acho que nosso som se encaixa em qualquer local!

Como anda A Ponte?
Pauliño:
A Ponte é muito especial pra mim, Tonlin e Sérgio, mas estamos sem tempo pra ela, acredito que temos mais páginas para escrever ainda, mas não agora …

Vocês conhecem/gostam de alguma atração em particular desta edição do Coquetel Molotov?
Pauliño: Guizado
! Nunca vi o show, Jarmeson (Jarmeson de Lima, jornalista e produtor do Coquetel Molotov) me deu a dica do som do cara, ouvi no myspace e pirei. Aí ganhei o “Punx” da minha namorada e pronto: virei fã! O som deles tem programações eletrônicas pesadas, mas tem aquela abertura para uma experiência única ao vivo, fora a formação da banda, né?! Que tem Curumin, Ryan, Gui e Regis.
Anthony Diego:
Acho que o show mais esperado sem dúvida é o de Marcelo Camelo. Estou ansioso para ver esse show. Também quero ver o show de Guizado, que pelo que vi/escutei até agora, vai ser um show fodástico!

Se quiserem acrescentar algo o espaço é de vocês!
Pauliño:

“O ponto inicial
Não vai ter parte final
Tão-pouco uma descrição
Breve que vocês terão

Leve Ana pra passear
Pede que ela vai te dar
Não morra na conceição
Estrague o joelho não!”

Anthony Diego:
Ow yeah!

Serviço:
Festival No Ar: Coquetel Molotov 2008 - Primeiro Dia
19/09 (Sexta-feira) - 17hs
Local: Teatro da UFPE
Entrada: R$
15,00 (meia-entrada) e 30,00 (inteira)
com Burro Morto (PB), A Banda de Joseph Tourton, Bandini (RN) e Guizado (SP) na Sala Cine UFPE; e Júlia Says, Vanguart (MT), Cidadão Instigado (CE), Shout Out Louds (Suécia) e Marcelo Camelo (RJ) no Teatro da UFPE

Cobertura: Volver no Teatro de Santa Isabel

Volver no Teatro de Santa Isabel

Volver no Teatro de Santa Isabel

Sei que muita gente vai chiar aqui, mas os dois shows mais bonitos que vi em 2008 foram o do Cordel do Fogo Encantado no Nascedouro de Peixinhos, no carnaval, e o do Volver ontem, no Teatro de Santa Isabel. E olha que só peguei as últimas seis músicas deste último.

Talvez por ceticismo, pessimismo, niilismo e outros “ismos” que só atrapalham a vida da gente, não esperava jamais ver o que vi ontem. Sabia que o show seria legal, bem produzido, agradável de ver (show no Teatro de Santa Isabel é coisa do outro mundo), mas não estava preparado para presenciar um “pequeno” detalhe: o Santa Isabel estava absolutamente lotado, com todo mundo cantando todas as músicas da banda. Rebobinei a fita do tempo e voltei para 2003, no Teatro da UFPE, quando os então iniciantes do Volver participaram de um concurso promovido pela universidade. Fizeram então, de longe, a melhor apresentação entre as bandas concorrentes, mas não levaram nada. Ficava, já ali, a sensação de ter nascido uma banda com um potencial enorme a ser explorado, e com coragem e ousadia de fazer rock gaúcho numa terra que prima tanto pelo regionalismo.

Adiantei a fita. Voltei ao presente. E continuei embasbacado. Uma banda em sua melhor forma, uma iluminação perfeita, um som cheio e cristalino que ecoava por todo o Teatro e um público que eu julgava não existir.

Gleisson Jones e Volver

Gleisson Jones e Volver

O show serviu para a gravação do primeiro DVD da banda e para o lançamento de seu segundo disco, o ótimo “Acima da Chuva”. Como o álbum foi lançado antes de forma virtual, eis que o grupo já colheu um ótimo fruto: “Tão Perto, Tão Certo” já é hit. O mesmo deve acontecer com “Sincero”, canção novíssima que deve entrar no terceiro álbum da banda: uma falsa balada que desata para a porradaria, ainda que, lógico, seja uma música sobre relacionamento, tema mais caro do Volver. Gleisson Jones, do Rádio de Outono, cantou (e muito bem) a esperta “Máquina do Tempo” (”que legal seria ter uma máquina do tempo/ com ela eu voltaria a ser o seu melhor momento”), e mostrou o quanto de talento e de capacidade vocal ficavam escondidos atrás da bateria de sua banda.

“Mr. Bola de Cristal”, com todo mundo de pé e cantando a plenos pulmões, fechou a apresentação. Quando o jogo parecia encerrado, com o público já saindo do teatro, eles voltam para atacar com “Não Ria de Mim”. E eu continuava atônito. De onde saiu tanta gente? Banda nenhuma pode ter tantos amigos e familiares assim. Isso tem um nome: público. E ele foi formado show a show, desde 2003.

Sei que vai chover comentário de gente dizendo que a Volver é amiguinha do RecifeRock!. Que a banda é protegida da casa, favorecida. Que tira o espaço de muita banda que não tem seu talento devidamente reconhecido  aqui. Mas a verdade é uma só: de 2003 para cá, o Volver é um dos poucos grupos que ainda se mostra vivo e produzindo. Ontem, no Santa Isabel, eles estavam, merecidamente, acima da chuva.

Volver no Teatro de Santa Isabel

Volver no Teatro de Santa Isabel

Volver no Teatro Santa Isabel

Volver no Teatro Santa Isabel

Obrigadoooooooooooooooo

Obrigadoooooooooooooooo

Volver no bis

Volver no bis

Público saindo do teatro

Público saindo do teatro

Cobertura: Jazz Festival Brasil

O RecfeRock! foi conferir, no sábado, o último dia da etapa recifense da edição 2008 do Jazz Festival Brasil, realizada no Teatro de Santa Isabel. Apesar do ingresso salgado (R$ 50 inteira, R$ 25, estudante), um público relevante compareceu às dependências do teatro para presenciar um gênero pouquíssimo difundido aqui e ainda com a pecha de ser vinculado às elites culturais do País. Pois o que se viu sábado destoou um pouco desses lugares-comuns: uma platéia predominante jovem - daquelas que dava para perceber que ralou bastante para comprar o ingresso e que estava longe de ser iniciada em jazz -, saboreou com atenção cada acorde tocado, cada performance da noite que, quem diria, teve seus momentos tipicamente roqueiros. O que prova que cultura não é algo estático, pertencente a uma determinada camada social e faixa etária previamente definida pela indústria da música. 

Primeiro grupo a entrar em cena, o sexteto canadense David Braid Sextet passeou pelo repertório do genial pianista Count Basie. Liderado pelo próprio David (piano), a banda conta ainda com os excelentes Perry White (sax), Kevin Tuncotte (trompete), Steve Wallace (baixista que, segundo David, tocou com um dos dedos machucados devido a um acidente com a janela do hotel) e Nick Fraser (baterista monstruoso). Completamente encantados com a estrutura do Santa Isabel, os músicos capricharam na execução das canções, com destaque para a linda “Harvard Blues”, cujo piano delicado e sax melancólico emocionaram boa parte dos presentes. Alguns momentos mais pesados, que chegam mais perto do rock, vieram com releituras da The Sunshine Boys, grupo formada por Count Basie – veja só – ainda nos anos 1930. Também homenagearam o mestre Oscar Peterson, em momento solo de David. Mas o melhor mesmo ficou por conta de “Somebody Loves Me”, canção que reúne o que o jazz tem de melhor: raiz negra, a dicotomia peso/delicadeza e um set de metais de tirar o fôlego de qualquer um. Foram aplaudidos de pé no final.

Depois disso veio, inusitadamente, os momentos roqueiros da noite, todos proporcionados pelo genial trompetista francês Irakli de Davrichewy e sua banda, a The Louis Ambassadors, que, como o nome sugere, presta homenagem ao mais roqueiro dos jazzistas: Louis Armstrong. O clima já ficou interessante na primeira música: uma das cordas do baixo acústico de Phillipe Pletan estourou, e o músico ficou sem saber o que fazer. Bem-humorado, Irakli disse que continuaria o show sem o baixista, que saiu de cena com acenos de adeus de seus companheiros de banda. Mas aí veio a cartada da de mestre. Pletan voltou ao palco com o baixo de Steve Wallace, da banda de David Braid, que se apresentara poucos minutos antes. Foi o suficiente para quebrar o gelo com a platéia e ganhar de vez a simpatia do público. E, entre tantos bons momentos, dois emocionaram em especial: o stand de “What Wonderful World”, imortalizada na voz rouca de Armstrong, regravada por Joey Ramone em seu disco-póstumo, “Don’t Worry About Me”, e utilizada pelo diretor Michael Moore no documentário “Tiros em Columbine”. E, covardia total (no bom sentido), foi o stand de “La Vie En Rose”, canção que se confunde com a trajetória de sua maior intérprete, Edith Piaf. Para fechar, um solo de bateria criativo de mais de cinco minutos do sensacional Sylvain Glevarer, que, em momentos de fúria, dispensou as baquetas para usar mãos e cotovelos. Também foram aplaudidos de pé no final.

Uma dica: não perca o próximo evento de jazz no Recife. E fique atento com as conexões do estilo com o rock. E, na boa, boa parte da graça da vida advém do fato de não ter medo de ser culturalmente promíscuo. Ou seja, se permitir ver, em um intervalo de três dias, gente tão diferente (e tão igual) quanto Nuda, Camarones Orquestra Guitarrística, David Braid, Irakli de Davrichewy e João do Morro.