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Cobertura: João do Morro no 100% Brasil

Deixemos as questões estéticas de lado e vamos tentar nos ater aos aspectos ideológicos: João do Morro está para o Morro da Conceição assim como Cannibal para o Alto José do Pinho. Ambos são fenômenos periféricos, adeptos da cartilha do “faça você mesmo” e, cada qual ao seu estilo, retratam o cotidiano de suas comunidades. Só que ao contrário do politizado vocalista do Devotos, o viés de João do Morro é o deboche, o escracho. E, sim, o cara é muito competente no que se propõe. Esbanja presença de palco, as letras são muito bem sacadas (o hino gay “I Will Survive” se transforma em suas mãos na impagável “Wilson Vai”) e ele parece prestes a decolar. E, quer saber? Tomara que decole mesmo.

Noite de quinta-feira. Concentração de gente na frente do 100% Brasil. A economia informal tenta faturar uns trocados: barraquinhas vendem churrasquinho e caldinhos, estes vendidos também por ambulantes. Entre os consumidores, gente que se produziu especialmente para a noite: casais e gente que pretende sair de lá acompanhada. Numa das mesas, a banda de João do Morro se descontrai entre uma cerveja e outra antes do show. Eis que sou apresentado ao homem. Camiseta preta, calça jeans e uma enorme corrente de prata, me cumprimenta de forma educada e parece ainda não ter se dado conta do sucesso que faz. A banda fecha a conta. Hora de segui-los até dentro do recinto.

O ingresso custa cinco reais, e o lugar está bem próximo da lotação. No palco, um apresentador gordinho trata de animar a platéia com um concurso bizarro: chama cinco voluntários para subir ao palco. Cada um precisa virar uma garrafa inteira de cerveja, sem “vazar” (escorrer cerveja pela boca) e sem tirar a boca do gargalo. Quem virasse mais rápido ganharia cinco cervejas de prêmio. Desajeitados, todos acabam eliminados, e a competição fica sem vencedor. Um pequeno camarote da altura de dois degraus é improvisado perto da mesa de som, à direita do palco. Nele, algumas garotas começam o expediente, e, a pedido do apresentador, começam a soltar frases de efeito no microfone: “É hoje que eu só volto amanhã”. “É hoje que eu boto uma gaia bem massa naquele corno”. E, a mais mimosa de todas: “Eu quero mamar!”. O apresentador se empolga: “Pessoal, hoje a noite é completa. O motel Lua de Mel está com uma promoção de R$ 11,90 e aceita todos os cartões. É hoje!”. E prova que a noite era aquela mesmo: “Aproveitem. O camarão hoje está por R$ 9,90”. Recados dados, público aguçado e atiçado e João do Morro e banda são convidados para entrar em cena. E, corajosos, abrem logo com “Ei Boyzinho (papa frango)”. O lugar inteiro vai ao delírio. Ninguém fica parado, e até os garçons tratam de servir os clientes dançando, tornando sua jornada de trabalho menos sofrida.

E não é que a banda é boa? Artur (percussão), André (guitarra), Adriano (baixista que tocou com o pé torcido), Aloísio (teclado), Keko (cavaco), Miza (bateria) e Tio (percussão) seguram a onda bonito, e imprimem até um certo peso a algumas das músicas. Na seqüência vem “Chupa que é de Uva”, e João se revela um frontman e tanto: provoca a platéia, rebola e dança tal qual um Mick Jagger do samba. Emendam com “3 Segundos”, e é impressionante como a platéia canta todas as músicas. O mesmo acontece com “Gigolô”, que segue a mesma temática de “papa frango”. E vem o melhor da primeira parte do show, que fica por conta de “As Nega Endoida”. Cada coreografia mais “linda” do que outra na platéia.

Vem a sexta música e a impressão é que o cara só tem hit no repertório: “Sinal de Puta” é espertamente colocada ao lado de “Putaria”, um mapeamento do Recife através dos puteiros da cidade (“Casas de Furança”). De deixar sociólogo com inveja. É hora então de “Frentinha”, cuja coreografia pélvica deixaria Elvis com as faces coradas. E o achado poético da noite: “Bicha Boa do C…”, do verso “boa é mãe, legal é pai, tu é gostosa pra carai…”. Logo após ele anuncia uma singela canção de título “Sarrar”. Uma moça, das mais ativas na platéia, mostra que essa história de sarro é  pura perda de tempo: “sarrar não é comigo!” Suas coreografias eram a prova indubitável disso. O mais bacana é que tudo isso acontecia num clima de paz e de tranqüilidade, sem confusão alguma, com vários casais de namorados curtindo o show e gente que parecia estar ali para de fato ver o novo ídolo.

Quando você pensa que já viu tudo, vem o melhor do show. A versão para o clássico gay “I Will Survive”, que se transforma, nas mãos de João do Morro, na hilária “Wilson Vai”, com letra que relata a história de um certo rapaz que descobre a felicidade ao se assumir. Genial!

Após uma homenagem ao falecido cantor Pinga do Brega, do Alto José do Pinho, a banda encerra com “Balaigem” e sai do palco bastante aplaudida.

João do Morro deve ser encarado como o que é de fato: pura diversão, assim como Reginaldo Rossi. Não vai mudar o mundo. Não é a nova voz da verdadeira cultura suburbana. Mas também não é produto plastificado e falso dela. Ao contrário, encontrou um caminho original e debochado para falar de questões que estão bem próximas de sua realidade. E, na moral, é a coisa mais rock, no que ele tem de rebeldia e de deboche, a surgir em Pernambuco nos últimos anos. No final do show, comprei o CD e fiz questão de pedir autógrafo.

Mas, clichê dos clichês, o melhor da noite mesmo estava reservado para o fim: o apresentador avisa no microfone: “quem estiver de carro e for para Olinda, por favor, tome muito cuidado e evite a beira-mar. Está tendo uma blitz pesada da polícia lá e eles estão parando todo mundo que bebeu”. Isso é que é solidariedade e serviço de “utilidade pública…” Será que dá para dar um recado desses numa ligação de três segundos ?

Cobertura: The Playboys e Pocilga Deluxe no Quintal do Lima

A ficha só caiu na própria sexta-feira, no Quintal do Lima. O The Playboys já é uma banda veterana. Até aí a novidade é zero, já que o último trabalho deles, lançado no ano passado, carrega no título a idade da banda: a coletânea “10 Anos Pedindo Mesada”. Como o melhor do grupo sempre foi o humor requintado e inteligente, a informação dos dez anos de carreira acaba passando meio batida. Mas estamos diante de veteranos que já se apresentaram em alguns dos principais festivais do país, e que ainda dão mostras de vigor e renovação, até nas piadas velhas, como em “Paulo André Não Me Ouve” (maiores informações abaixo).

E mais legal ainda foi presenciar o surgimento da nova banda de André Balaio, do Paulo Francis Vai pro Céu: a boa Pocilga Deluxe. Balaio sempre contrariou a máxima titânica que reza que “a televisão deixa burro, muito burro demais”. No caso dele a televisão serviu para a construção de um humor besteirol que por vezes bate na trave da genialidade, como no caso de “Eu Queria Morar em Beverly Hills”, em que conseguiu colocar no mesmo balaio “Barrados no Baile”, “Largo da Encruzilhada” e “Cidade monumento com seus ‘hippies nojentos’”. Com a Pocilga Deluxe André mostrou que ainda está afiado, com uma banda um tanto mais madura na parte musical que o Paulo Francis Vai pro Céu e o mesmo deboche certeiro de sempre.

Pouco depois da meia-noite, com pouca gente ainda no local (e bastante do lado de fora), a Pocilga Deluxe começou os trabalhos da noite. Fazem reverências aos ícones “cafonas” do cancioneiro francês do século passado, mas é o material autoral que merece registro.

“Bandida”, por exemplo, segue o lirismo de Lupicinio Rodrigues, em letra de temática de vingança explícita, na qual o moço rejeitado deseja a desgraça de sua antiga amada, torcendo para vê-la agonizar em uma cama de hospital. E na hilária “Flávia Inflável”, que narra o amor perfeito entre um homem e sua boneca inflável. Nada que já não tenha sido feito antes, mas tudo bem acabado e engraçado, amparado por um rock simples e direto. Foi apenas a segunda apresentação da banda, que, se continuar nesse caminho, não se levando a sério e ao mesmo tempo trabalhando com seriedade, tem tudo para chegar longe.

O The Playboys já entrou em cena com a casa mais cheia, e com um público que nitidamente era deles. Apesar da falha no som (era impossível entender o que o guitarrista Filipe Novais, que assume o vocal em boa parte do material novo, cantava) deu para ter uma idéia do que virá em “Chega de Niilismo”, disco a ser lançado até o final do ano: sátira ácida ao neoliberalismo (“eu quero a ascensão da classe pobre porque eu não suporto pobre”, bradava João Neto em uma das letras), chacota com Chico Buarque, com a cinqüentenária bossa-nova, e com eles mesmos, vide “Eu Não Quero Mais Acabar no Garagem”. Mas o melhor da noite estava mesmo com ela…

Na platéia, o produtor Paulo André tentava se fazer despercebido em uma das mesas. A banda atacou com “Paulo André Não Me Ouve”, e João Neto tratou de ser novamente impagável: “Paulo André, vamos repetir a dose. Eu quero tocar no Chevrolet Hall”. O local foi abaixo com inúmeras gargalhadas, com Paulo André se mostrando um tanto desconfortável com a piada.

André Balaio foi chamado ao palco para cantar “Eu Queria Morar em Beverly Hills”, para mais uma vez ressaltar: “Esta música não é de Wander Wildner”.

E o show continuou em ótimo clima, com destaque para o baterista Lucas Rabêlo, em noite particularmente inspiradora e raivosa. “Pancadão Armorial”, “Pessoas Cult”, “Big Haule”, “Cidadão Formiga” e “Niilista de Fim de Semana” também geraram bons momentos de uma banda que, pelo visto, ainda vai continuar pedindo mesada por muito tempo. A fórmula, pudera, permanece genial: desconstruir o punk e o marxismo para reivindicar os direitos de playboys e patricinhas (alô, público do “Conexão Rio-Recife”!). Afinal, trata-se de uma classe “oprimida” e “esmagada” pelo sistema. Como é reconfortante saber que ainda há vida inteligente circulando por aí…     

Cobertura: Shaman no Armazém 14

Nova formação do Shaman faz show no Recife

por Mirrelle Cordeiro

Após quase dois anos e meio sem dar o ar da graça em Pernambuco, voltou a tocar, no palco do Armazém 14 no domingo (25), uma banda totalmente desconectada - não dos instrumentos, mas de tudo que se entende ser uma banda. Eis que o Shaman retorna a casa. Isso porque foi no Recife que, há cerca de sete anos, estreou a nova banda do André Matos e de ex-integrantes do Angra.

A tentativa de retomar as atividades da banda não tem rendido lá essas coisas. Com a saída de André Matos e dos outros músicos, a proposta da banda deixou de ser a apresentação de um trabalho original para se transformar numa cópia mais do que mal elaborada dos bons tempos de Shaman. Se com o lançamento do álbum “Immortal” a intenção era não “perder a cara mística” de outrora, a nova formação terminou conseguindo deixar mais do que claro que o verdadeiro Shaman não apenas morreu, mas consolidou a sua inexistência.

A banda local Caravellus abriu a noite. Em seguida, o público seria prestigiado com o Terra Prima, mas, com o atraso de três horas na passagem de som devido a problemas no ajuste dos equipamentos da atração principal da noite, a banda recifense se atrasou e foi a última a tocar, fazendo show para apenas trinta “sobreviventes” no final da noite .

De volta ao Shaman: No palco, os músicos entraram ao som da música instrumental “Renovatti”, primeira faixa do novo CD, num clima de companherismo forçado e entrosamento zero. Os fãs receberam os músicos educadamente, mas não houve euforia. Principalmente aos 15 minutos de show quando entrou o primeiro “cover” - a música “Turn Away”. Não só ela, como as cinco músicas dos álbuns anteriores que foram tocadas mais pareceram covers do que um trabalho do que ainda se chama “Shaman”.

De Shaman mesmo, só constava o Confessori, que também não é mais o mesmo. Não por causa do novo corte de cabelo, e sim pela performance dispersa e erros grosseiros que vem cometendo no palco. O novo vocalista, Thiago Bianchi (ex-Karma), mal sabia as letras das composições antigas e, entre uma enrolação e outra, levou o público na conversa com agudos bruscos e suas famosas dancinhas improvisadas.

Mas ainda não foi a dancinha do Bianchi o que surpreendeu. No fim do show que começou contabilizando cerca de 200 pessoas e que no decorrer dele podia-se contar pouco mais de 100, a banda não errou ao encerrar sua apresentação tocando um dos maiores sucessos do Angra, “Carry on”. Tocada em tom diferente da versão original, a canção não foi a única a compor a bem sucedida tentativa da banda de agradar o público. “Nothing to say” também integrou o repertório, assim como “Aces high”, do Iron Maiden. E, apesar delas demonstrarem o amadorismo do conjunto, também foram bem recebidas.

Cobertura: Conexão Rio-Recife

Algumas coisas ficaram bem claras neste Conexão Rio-Recife, evento realizado no espaço externo do Armazém 14:

a) O show da Nação Zumbi vale cada centavo dos salgados R$ 35,00 cobrados pelo ingresso (R$ 40,00 comprado na hora).

b) O público da Nação Zumbi, infelizmente,  não tem esse poder aquisitivo.

c) Eita trequinho horroroso esse tal de Monobloco, sô! Em uma palavra: golpe

d) O funk carioca é o nosso punk: periférico, auto-sustentável, vindo das classes sociais menos favorecidas e com temáticas políticas tão ou mais fortes do que a das bandas que originaram o punk.

e) A playbozada que compareceu em massa ao evento não tem a menor noção do que é o “Funk das Armas”. Quase ninguém ali conhecia o “parapa papá papá”…

f) Como todo mortal, tenho meus preconceitos, e eles ficaram evidentes no evento: não tenho a menor simpatia pela elite deste país, ou de qualquer outro…

Vamos lá…

Uma concentração assustadora de jovens da elite pernambucana se fazia presente em frente ao Armazém 14. Gente que parecia muito mais interessada em ver e ser vista do que com os shows que assistiria logo mais. Salões de beleza devem ter faturado como nunca no sábado à tarde: jovens bem produzidas, de cabelo escovado, maquiadas e vestidas como se fossem para alguma danceteria da moda. Os caras, todos com pinta de “pegador”, exibiam seus carrões e trajavam roupas de marca, muito preocupados em chamar a atenção das garotas escovadas. E nem sinal do público da Nação Zumbi. Era tanto playboy e patricinha rondando o local que demorei horas para me convencer de que estava prestes a ver um show da Nação Zumbi. Ali, não havia lugar para confronto de classes. Uma só reinava soberana, impoluta e intocável: a classe média-alta (muito mais “alta” do que “média”, diga-se de passagem). Chegava a ser engraçado. Lembrava um fenômeno, verdadeira praga do início dos anos 90 aqui no Recife, chamado “pagoderia”, onde jovens de classe média-alta iam escutar pagode estilizado na vã esperança de catar uma patricinha. Tempos difíceis essa tal da adolescência. Todo o mais era mero pretexto para se dar bem, com todo mundo pouco se importando com o que ouvia ou deixava de ouvir. Foi a mesma coisa ontem.

Pontualmente a meia-noite a Nação Zumbi entrou em cena. Abriram com “Bossa Nostra” e emendaram com “Hoje, Amanhã e Depois”. Alguns poucos fãs se concentravam na frente do palco, boa parte deles formado por jornalistas e fotógrafos que estavam ali a trabalho. Os demais viam a apresentação um pouco assustados, mas extremamente receptivos e educados. Tanto que deu para ficar de forma sossegada na frente do palco durante as execuções de “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada” e “Quando a Maré Encher”, pois nenhuma tentativa de formação de roda, nem a mais tímida delas, foi manifestada. A banda mostrou um profissionalismo e uma coragem incríveis, e mesmo sabendo que estava tocando para um público que nitidamente não era o dela, deu prioridade ao repertório do “Fome de Tudo”. E, quando tocavam algo da época de Chico Science, o faziam em releituras mais lentas, mais trabalhadas e menos palatáveis. Tudo muito bem feito, mas longe de entregar fácil o jogo. Tocaram durante uma hora e meia, e, os que prestaram atenção ao show ficaram extremamente impressionados com o que viam e ouviam. O resto estava mais preocupado em circular mesmo, e parecia não ver a hora de o Monobloco subir no palco…

Ah, Pedro Luís, eu tinha tanto respeito pelo senhor e pela sua Parede. Mas o que você oferece ao público com o seu Monobloco é um bando de samba pasteurizado, um repertório de covers estilizados de músicas de Tim Maia, Jorge Ben, sucessos de Elba Ramalho e de Alceu Valença. Um festival de sucessos (dos outros) travestidos em releituras constrangedoras de tão ruins, insípidas, artificiais. Um verdadeiro exército de percussionistas no palco fazendo um sonzinho tão mixuruca que só não dava pena porque a elite pernambucana engolia aquilo como se fosse tocado por seus próprios autores, a coisa mais rara e difícil de ouvir por aí. E tome “Morena Tropicana”, “Banho de Cheiro”, “Que Beleza (Imunização Racional)”, “Descobridor dos Sete Mares” e “Fio-Maravilha” tocados em versões “sambinha” tão sem-vergonha que até a Recife FM teria vergonha de colocar em sua programação.

Só me vinha uma palavra na cabeça: “golpe”. Bandinha cover das mais desprezíveis. E todo mundo achando o máximo. Ah, Pedro Luís, como eu te respeitava…O engraçado é que o grande fracasso popular do repertório acabou sendo justamente “Rap do Real”, uma das poucas autorais e que ninguém ali sabia o que era, todo mundo de braço cruzado parecendo perguntar: “que raio de música é essa que não estou reconhecendo?” Triste. E o pior é que eles voltam em breve. No dia 17 de julho vão tocar num projeto chamado “Eu Faço é Cultura”. O nome é risível para o que foi apresentado ali. Quando você pensa que nada pode ser pior, eles entoam o corinho: “Uh, sai da frente/ sai da frente que o Monobloco é chapa-quente”.

Ainda no palco, os incontáveis integrantes do Monobloco chamaram ao palco a dupla de Mcs Jr e Leonardo, que, tendo a batucada do grupo como base, cantou seus maiores sucessos, que ali não repercutiam nada. Ninguém conhecia nenhuma das versões do “Rap das Armas”. O Monobloco enfim deu a graça da sua ausência e deixou o palco para a dupla, que, amparada por um DJ, soltou os funks mais verborrágicos e interessantes já criados por alguém. E ainda desabafaram: “por conta do DVD pirata do filme “Tropa de Elite” muita gente vem relacionando o nosso nome ao crime-organizado, por causa de uma versão da música que não é nossa. Nós, em 17 anos de carreira, nunca fizemos apologia ao crime. Nós só fazemos apologia a Jesus”. E, infelizmente, o único refrão cantado pelo público foi “eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela onde nasci…”, pois, além deste, ninguém conhecia nenhum trecho de letra de nenhuma das músicas deles. Nem o parapapa parapapa. Alguns playboys, mais exaltados e menos educados, ainda deram dedadas para o palco e rumaram em direção a saída. E foi um festival de carrão saindo do estacionamento da Livraria Cultura. E uma fórmula parecia clara ali: quanto mais possante e caro o carrão, maior a arrogância e falta de educação de seus donos.

Não, definitivamente eu não respeito a elite. Não consigo respeitar quem não respeita dois sujeitos da periferia do Rio de Janeiro que venceram na vida fazendo música, ainda que para ela, a elite, aquilo não passasse do maior horror. Horror, eles não sabem, é o Monobloco…  

Cobertura: Abril pro Rock - Gamma Ray e Helloween

Cobertura feita por Bruno Arrais

Chevrolet Hall, 27 de abril de 2008, última noite da 16ª edição do festival Abril Pro Rock; um domingo – dia um pouco inconveniente para sair de casa à noite para um festival de rock, ainda mais pela enorme quantidade de chuva despejada dos céus. Mesmo assim, cerca de cinco mil pessoas de toda a região Nordeste reuniram-se na casa de show para assistir às apresentações de duas das mais antigas e influentes bandas de um nicho muito caro aos apreciadores do heavy metal: o heavy melódico.

Ao Helloween podemos atribuir a criação desse gênero. Foram eles que em meados da década de 80 trouxeram à vida os álbuns que definiriam os caminhos a serem trilhados por milhares de bandas seguidoras do estilo em todo o mundo. Já o Gamma Ray é uma banda mais “nova”, formada por Kai Hansen – fundador do Helloween –, que no final do ano de 1988 deixou a banda incomodado com o caminho que ela vinha trilhando – grandes turnês, envolvimento de membros com drogas, desentendimentos pessoais entre os integrantes etc.

Durante toda a década de 90 essas duas bandas levaram suas carreiras num certo clima de rivalidade; uma coisa meio Beatles e Rolling Stones – guardadas as devidas proporções – do metal. Mas, agora, 20 anos depois, as duas uniram forças para viajar pelo mundo tocando juntas na turnê Hellish Rock ‘07 / ‘08.

No último mês a turnê tomou o rumo da América do Sul, com passagem pelo Brasil, incluindo Recife em seu roteiro de viagem; o que nos trás de volta ao Chevrolet Hall na noite do domingo 27.

Às 19h já havia uma grande concentração de headbangers na entrada da casa de shows. Às 20h o público adentrou as portas para assistir à apresentação. Havia um clima de grande expectativa, bem como de confraternização, afinal de contas as duas bandas eram velhas conhecidas do público pernambucano (e alagoano e baiano e paraibano…) e a vinda delas era esperada há mais de 15 anos – falo por experiência própria. Este evento foi, para a maioria do público ali presente, a realização de um sonho antigo.

Finalmente, às 21h, aproximadamente, os alto-falantes anunciaram a primeira banda a subir ao palco: Gamma Ray. Quando as cortinas se abriram, todos os presentes saudaram a banda com grande calor. E eles abriram o set com Into the Storm, primeira faixa do último disco, Land of the Free 2, que foi seguida pela clássica Heaven Can Wait – do álbum Heading for Tomorrow, seu debut –, que fez a platéia vibrar mais ainda e cantar junto cada palavra da letra. E foi uma noite de clássicos. Kai Hansen e seus companheiros executaram músicas de toda sua carreira, prestigiando o público com suas favoritas e deixando todos muito satisfeitos.

Para mim, particularmente, um dos grandes momentos do show se deu quando o Gamma Ray tocou Land of the Free – na minha humilde opinião seu clássico maior –, emendando-a com a espetacular Heavy Metal Universe, dando a costumeira parada para que a platéia cantasse em uníssono o refrão “It´s a Heavy Metal Universe!!!” e batesse palmas. Nesse momento Hansen tomou nas mãos uma bandeira do Brasil e disse que era a bandeira do universo do metal, cativando de vez – se é que era necessário – o público. Outro grande momento foi a execução de Ride the Sky, música do disco Walls of Jericho, primeiro LP do Helloween, de 1985. Com esta música o Gamma Ray incendiou a platéia, que se espremeu o mais próximo possível do palco, completamente bestificada, cantando a plenos pulmões.

Foi um grande show, em que a banda mostrou que, apesar de somar aproximadamente duas décadas de estrada, continua em grande forma, pronta para encarar mais duas décadas de composição, gravação e turnês; como também mostraria o Helloween, em seguida. Amém.

Após um breve, mas tenso, momento de espera, a apresentação do Helloween fez a alegria dos presentes, muitos dos quais, fãs da banda por mais de vinte anos; metaleiros das antigas. Andi Deris, Michael Weikath, Markus Groβkopf e os “novatos” Sascha Gerstner (guitarra) e Dani Löble (bateria), fizeram uma apresentação impecável, digna de uma carreira sólida de quase três décadas de existência.

A exemplo do Gamma Ray, a apresentação do Helloween prestigiou o público com músicas de todas as fases de sua carreira. A abertura foi feita com a canção épica de mais de 13 minutos Halloween, do álbum clássico Keeper of the Seven Keys, Part 1, pondo imediatamente abaixo o Chevrolet Hall.  Na seqüência, Sole Survivor, primeiro hit da Era Deris, música ultra-pesada que levou os bangers à loucura, deixando muitos, mais veteranos como eu, com uma baita dor no pescoço.

E foi uma verdadeira celebração, hit atrás de hit: March of Time (Keeper 2); a nova As Long As I Fall, primeiro single retirado do álbum Gambling With the Devil, que agitou principalmente os fãs mais novos; outra do Keeper 1, a balada A Tale That Wasn’t Right; seguida de um solo de bateria endiabrado de Dani Löble, que aproveitou inclusive para nos prestar uma homenagem incluindo ritmos brasileiros em seu solo; King For a Thousand Years, do recente Keepers of the Seven Keys – The Legacy; Eagle Fly Free, levou todo mundo à loucura, cantando e batendo palmas; depois The Bells From the Seven Hells; I Wish I Could Fly; e, para “encerrar”, outro clássico da Era Kiske, a faixa 5 do Keeper of the Seven Keys, Part 2, Dr. Stein.

A banda saiu do palco deixando o público sedento por mais, gritando “Happy, happy, Helloween” e “Helloween, helloween”. Após alguns minutos voltaram e executaram um longo medley que felizmente aplacou a sede dos fãs: I Can / Where the Rain Grows / Perfect Gentleman / Power / Keeper of the Seven Keys. Ao fim do medley, abandonaram o palco novamente, deixando o público em grande expectativa, pois a tour Hellish Rock trazia uma “surpresa” especial: uma apresentação conjunta das duas bandas.

E como prometido, após um breve intervalo ao fim do show do Helloween, as duas bandas subiram juntas no palco para o êxtase de seus fãs, antigos e novos. Foi um verdadeiro encontro de titãs, jamais visto no Recife. Já fui a muitos shows de Heavy Metal aqui na cidade – Angra (com e sem André Matos e companhia), Merciful Fate, Blind Guardian, Stratovarius, Blaze, Di´Anno etc. –, mas nenhum foi tão gratificante quanto este. Juntas, as duas bandas tocaram dois dos maiores clássicos do Helloween, da época em que Kai Hansen ainda integrava a banda: Future World e I Want Out. Foi o momento mais belo de toda a noite, em especial quando Kai Hansen e Michael Weikath tocaram o duelo de guitarras de Future World lado a lado, com grandes sorrisos nos rotos.

Uma noite inesquecível como Recife nunca viu. Uma noite para guardar na memória e torcer que não demore mais 15 anos para que se repita. Torçamos para que os produtores locais continuem acreditando no verdadeiro rock e proporcionem mais espetáculos dessa magnitude com maior freqüência. Stay heavy!