Archive for Coberturas

Cobertura: Quintal do Lumo com Camarones Orquestra Guitarrística e Nuda

Camarones Orquiesta Guitarrística
Camarones Orquestra Guitarrística no Quintal do Lumo

Apesar de ser a terra das reclamações e dos dependentes dos cofres públicos, surge no Recife uma brecha de luz e de esperança jogada na cena independente da cidade. Formado por gente que está disposta a pegar no pesado e a fazer ao invés de se lamentar, o Lumo Coletivo realizou ontem, no Quintal do Lima, o seu primeiro evento: o Quintal do Lumo. E algumas evoluções já puderam ser comprovadas: o som do local, que costuma ser bem mais ou menos, ontem estava ótimo. Os dois shows, da potiguar Camarones Orquestra Guitarrística, e da local Nuda, foram tecnicamente e esteticamente impecáveis. E, o mais importante, o público compareceu.

A Camarones Orquestra Guitarrística abriu os trabalhos da noite e mostrou uma sonoridade interessantíssima. Com formação que reúne três guitarras, baixo e bateria, o grupo injeta peso em versões surf music para clássicos do rock em temas instrumentais, mas mostra ainda mais talento e vigor  nas composições de próprio punho, caso da excelente “Para Inglês Ver”. Liderados pela carismática baixista Ana Morena, eles não tiveram vergonha na cara ao juntar Metallica (“Enter Sandman”) e Roberto Carlos (“Emoções”) em uma mesma versão. O resultado de tamanho sincretismo soa divertido, desencanado e altamente roqueiro, com guitarras potentes e afiadas que parecem bradar ao público: “mexam-se, porra! Isso aqui é Rock!”.

Nuda no Quintal do Lumo
Nuda no Quintal do Lumo

Tarefa ingrata é escrever sobre o Nuda. Eles deixam todos os clichês do universo musical de lado para criar uma sonoridade única. Seu EP, “Menos Cor, Mais Quem”, ganha ainda mais brilho ao vivo, e seu show soa intenso o tempo inteiro. Fazem rock? Também. MPB? Também. Reggae? Também. Jazz? Idem. Tudo junto, numa combinação implausível que acaba funcionado maravilhosamente bem. E conseguem um feito e tanto: são instrumentistas excepcionais, mas nunca caem na armadilha do virtuosimo chato, feito de músico para músico. Ao contrário, o destaque ali é a banda, e não apenas um ou outro músico. O conjunto prevalece sobre qualquer individualismo. Quer saber? Me rendo…sou incapaz de traduzir o Nuda. Só vendo/ouvindo para saber como é. Me perdoem…

p.s. Vida longa ao Lumo Coletivo. Que outros surjam. E que a máxima seja seguida: a realidade é dura? Então vamos nos unir para mudá-la. Eis o espírito da coisa.

Camarones Orquestra Guitarrística no Quintal do Lumo
Camarones Orquestra Guitarrística e a dançarina no Quintal do Lumo
Nuda: Rapha (Guitarra e Voz) e Henrique (Baixo)
Nuda: Rapha (Guitarra e Voz) e Henrique (Baixo)

 Depois eu vou tentar conseguir mais fotos com as meninas de fotografia da Aeso. Essas minhas ficam só pra dar o gostinho do que rolou. (Guilherme)

Cobertura: André Matos no Clube Português

André Matos lança “Time to be free” na volta ao Recife

por Mirrelle Cordeiro

Centenas de pessoas se reuniram no último sábado (30/08) no Clube Português para assistir à apresentação do maior ícone do heavy metal brasileiro, André Matos. Acompanhado dos amigos de bandas de outrora - os Mariutti, Luís (baixo) e Hugo (guitarra), e Fábio Ribeiro (teclados) -, e dos novos integrantes André Zazá Hernandes (guitarra) e Eloy Casagrande (bateria), trouxe canções que foram sucesso ao longo de toda sua carreira.

A abertura do evento ficou por conta da banda paulistana Suprema e dos pernambucanos da Terra Prima, que, com toda a mistura de metal aos “ritmos da terra”, aqueceu o público que esperava pela atração principal.

Pouco mais de 0h e os fãs puderam ouvir “Menuett” seguida de “Letting go”, as primeiras faixas do álbum novo “Time to be free”, abrindo o maior espetáculo da noite. O show veio recheado de clássicos do Viper (”Living for the night” agitou a galera que cantou em coro), Angra, Virgo (projeto solo do músico com o guitarrista Sacha Paëth) e Shaman.

Após mais de dois anos e meio sem tocar na cidade - o último show do artista aqui em Pernambuco foi em 2005 com a antiga banda Shaman -, André se apresentou em alto estilo e com figurino digno de noite de lançamento de um disco novo. Seis canções do cd novo fizeram parte do repertório, assim como “Make believe”, do Angra, que levou o público, que há muito não apreciava a canção ao vivo, ao delírio.

Os problemas enfrentados pela banda na noite anterior, no CearaInRock, que acabaram reduzindo o show à metade por conta da intervenção da guarda ambiental na casa onde se realizava o show, não foram suficientes para quebrar o ritmo e a performance do grupo no palco.

A banda se apresentou em clima de harmonia e amizade que, enfim, perdura entre os músicos, e mostrou ao Recife a que veio. André Matos e banda deixaram os fãs de alma lavada ao “dizerem” em alto e bom som como é que se toca “Nothing to say” e “Carry on” e se despediram da cidade não com a sensação, mas com a certeza do dever cumprido.

Cobertura: Mada 2008 - terceiro dia

O terceiro (e último dia) do Mada foi tomado pela expectativa criada em torno da apresentação de Mallu Magalhães. A principal pergunta que pairava entre os jornalistas era: será que vai dar gente? Qual será o grau de apelo dela com o público. Respostas: deu muita gente, mais até do que nos shows de Lobão e do Pato Fu. E a menina é mesmo um fenômeno.

Mallu Magalhães é uma criança prodígio. Como todos os precoces, parece viver em um mundo paralelo, particular. Às vezes dá a impressão de que sua idade mental beira os nove anos. E é isso que acaba desarmando todo mundo. Depois do show dela, resolvi cumprimentá-la. “Oi, Malu!” Ganhei um abraço forte no pescoço, desses que as crianças dão em sua mais pura inocência. “Gostei do seu show”. Novo abraço, agora acompanhado de um sorriso de orelha a orelha e de um “brigada” que parecia sair de uma menina de menos de nove anos até. “Você vai tocar no Recife dia 29 de setembro, né?”. “É”, ela responde. E depois começa a protestar. “Mas 29 de setembro é meu aniversário!”. O produtor dela me corrige e diz que as datas são 19 e 20 de setembro”. E ela começa a entregar o jogo, falando e pulando feito criança que ganhou uma bicicleta: “eu e o Marcelo Camelo já estamos ensaiando algumas coisas. Está ficando bem legal”. Pois é…Além do show dela, Mallu Magalhães vai dar uma canja com Marcelo Camelo. Pelo que vi da apresntação dela em Natal, tudo indica que o show dela no Teatro da UFPE vai ser arrasador. Quer saber? Quero que minha filha (se tiver uma um dia) seja igual a Mallu Magalhães.

Voltando um pouco no tempo: a grande surpresa da noite acabou sendo a banda de abertura, a ótima Rosa de Pedra, de Natal. Com predominância feminina (uma rabequeira muito boa e um cantora idem), alfaia e som de raiz misturado com guitarras, tinha tudo para dar errado, para ser mais um clone mal feito de Chico Science e do Mestre Ambrósio. Mas não é. A banda mergulha ainda mais fundo nas tradições caboclas, e tem até a manha de chamar ao palco três dançarinas de música regional que despejam catimbó por todos os poros. Catimbó de verdade, desses que só encontramos nos terrenos de canbomblé. Verdadeiro trabalho de pesquisa antropológica. Foi bonito de ver, e muito bem recebido pelo público presente. Merecido.

Deu pena dos paraibanos do Sem Horas, que tocaram na seqüência. Mostrando uma empolgação digna de quem está em cima de um palco, a banda teve diversos problemas técnicos. Na música de abertura o microfone do vocalista pifou, o que foi suficiente para deixar a banda nervosa e desestabilizada. Uma pena, pois trata-se daqueles grupos de rockabilly ingênuo que em condições normais teria tudo para fazer um belo show. Não às toa, só relaxaram no final da apresentação, com a ótima versão para “Papai me Empresta o Carro”, de Rita Lee.

Depois foi a vez da carioca Macanjo imitar o Los Hermanos até não mais poder. Naipe de metais igual, vocal igual, temáticas iguais…uma das músicas chama-se simplesmente “Arlequim”. Precisa dizer mais? O Rio de Janeiro, definitivamente, é hoje o túmulo do rock.

Aí veio mais uma banda na linha “bonitinha mas ordinária”. Era a Falcatrua, das Minas Gerais. Sei que é um trocadilho fácil, mas o nome da banda é diretamente proporcional à música que produzem. Começa parecido com Kid Abelha, depois lembra Titãs, e quando acham que não podem se parecer com mais ninguém, tocam covers de Tim Maia. Ok, são bons músicos, o som do palco estava ótimo, o show foi profissionao. E daí? E a criatividade? Vergonhoso…

E veio o fenômeno Mallu Magalhães. E ninguém mais tirou os olhos do palco. E a menina só tem 15 anos! E é de uma espontaneidade absolutamente desconcertante, o que talvez explique boa parte de seu sucesso em tempos de tamanho cinismo e de artistas completamente pré-fabricados e embalados para o consumo. Ali está uma garota de 15 anos que nitidamente toca sem a menor direção musical ou de palco. E é aí que reside todo o seu apelo. Além de um talento monstruoso. Tanto que a banda que a acompanha mais atrapalha do que ajuda. Ela entra em cena, fala ao microfone e nada de sua voz sair. Quando sai (a voz), diz que vai começar tudo de novo. Volta ao backstage, entra de novo em cena, dá boa noite e apresenta a banda. Depois disso foram cerca de 45 minutos de folk de alta qualidade. A menina é simplesmente sensacional, possui uma voz maravilhosa e é de fato talentosíssima. Desarma qualquer um. Espero sinceramente que ela não seja estragada pelo showbizz. E, no fim das contas, é muito bom saber que a nova referência da gurizada é uma guria que tem como referências Bob Dylan e Johnny Cash. Boa sorte, Mallu!

Depois foi a vez do Cordel do Fogo Encantado. E com ele veio um temporal tão grande, mas tão grande, que não deu para ver mais nada. Nem o show do próprio Cordel (que tem um público bem relevante em Natal), nem o americano Josh Rouge (uma pena) e muito menos Seu Jorge (obrigado, chuva!). Juro que queria ter visto o Montage encerrar a noite, mas era impossível. Só deu para entrevistar Lirinha e Gutie (novo empresário de João do Morro) e tentar sobreviver ao toró que caía na capital potiguar. Às vezes Lirinha irrita…

No mais, a impressão geral do Mada não foi das melhores: é tanta banda ruim se apresentando que qualquer show mais redondinho acaba tomando ares de sobrenatural. Ou seja, a verdade é que muita gente não merecia tocar naqueles palcos. Talvez a solução fosse uma curadoria, porque o critério de seleção das bandas revela uma amadorismo incrível. Tomara que melhore em 2009…         
 

Cobertura: Mada 2008 - segundo dia

Algumas coisas são bem chatas de dizer. Ao contrário do que julga o senso comum, não temos nenhum prazer específico em falar mal das coisas. Ao contrário, sempre torço para que tudo dê certo em todos os eventos. Considero-me uma boa pessoa, e quem me conhece de verdade sabe que não sou tão mau quanto meus escritos fazem parecer. Mas a verdade existe para se dita: salvo raras exceções, foi duro suportar o segundo dia do Mada.

Desabafo feito, desculpas previamente pedidas, e vamos ao trabalho sujo, pois ele precisa ser feito.

A abertura da noite coube a pior banda do evento, a tal da The Volta (RN) (sacou o trocadilho?). Um pessoal que, infelizmente, não tem senso de ridículo e não imagina como seu som regado ao que de pior existiu nos anos 80 somado com guitarras pretensamente pesadas soa falso, plastificado, brega e ingênuo (no pior sentido da palavra). O lirismo é ainda pior. Imagine alguém cantando a sério, tipo Dinho Ouro Preto, os seguintes versos: “eu não vou envelhecer sem ver isso mudar / esse mundo de papel e tudo que nele há”. E a coisa ainda piora: “cansei de ouvir desculpas de todos que querem falar / Cansei, não dá / Todos depois vão querer se explicar”. Aí você pensa que não pode vir nada pior do que isso. Mas o mundo é perverso, e a ordem natural das coisas é que tudo piore. Eles fecham o show com um cover horroroso (e novamente levado a sério, com frases do tipo “tira o pé do chão”) de “Enter Sandman”, do Metallica. Vergonha alheia. E acabei perdendo o melhor do show. Abriram com uma queima de fogos, que quase incendiou uma das caixas de som…

Na seqüência veio o confuso show do local Lunares, que tenta ser um êmulo de Muse, Radiohead e até Arcade Fire, e acaba, infelizmente, soando apenas como Lunares mesmo. Com um vocalista talentoso que possui uma voz incrível, o grupo mostrou que ainda está muito, mas muito aquém de suas referências. Pretensioso e muito, mas muito chato mesmo. E foi constrangedor ver o vocalista dançar valsa de olhos fechados com a sua guitarra. Quando achei que fosse o único a achar aquilo o cúmulo do ridículo, percebo um monte de gente virando de costas para desatar no riso. Seria até bonitinho se fosse a Mallu Magalhães na inocência de seus quinze anos…

O nível subiu bastante com a apresentação dos baianos do Subaquáticos, donos de um som encorpado, que mistura blues moderno com pegada roqueira e um quê de surf music com referências nordestinas. E, o mais incrível, não se perdem no meio de caminhos tão disparatados. Tudo soa coeso, extremamente bem executado (o baterista é monstruosamente bom) e gratificante de se ouvir.

Depois entrou a banda mais estranha de todo o festival. O gaúcho Poliéster é tão esquisito, mas tão esquisito, que nem o palco suportou. Deu pane na terceira música, e o palco ficou sem som e luz. O vocalista tem voz de mulher, a banda força tanto a barra para soar original que acaba confundindo originalidade com hermetismo de boteco. O som? Sei lá o que era aquilo, e duvido que alguém consiga explicar. Era tão ruim que preferi conferir a performance de Madame Mim na tenda eletrônica. Dei sorte, pois além de animada, a moça estava incrivelmente bonita (de verdade!) e até se dignou a mostrar a bunda para o público. Mas a realidade fez-se presente novamente…

A potiguar Síntese Modular, banda com apenas um mês de existência (apesar de formada por músicos experientes da cena local) mostrou que tem…apenas um mês de existência… além de um pop bem fraco, mal executado e que bebe em fontes sessentistas, dando a nítida sensação de não passar de um Volver de terceira divisão.

E o aguardado (pelo menos pela crítica) Curumin quase deixa de tocar no Mada. O palco, que já havia se manifestado no show do Poliéster, voltou a dar problemas na apresentação de Curumin, que demorou uma infinidade para começar. O show teve de ser encurtado, o que foi uma pena, pois o paulista brinca de fazer samba cafajeste, na linha “pilantragem” de  Simonal, soando como um Mundo Livre melhorado ao vivo. Debochado, tocou “Feira de Acari”, de Mc Batatinha, e saiu mais cedo do que o previsto, dando vez àquele que foi, de longe, o melhor show desta edição do Mada: Autoramas

Com uma introdução instrumental matadora, a banda colocou boa parte das quase três mil pessoas presentes para dançar. Os riffs de Gabriel são os mais impressionantes e contagiantes do rock nacional hoje. E tome “Paciência”, “Você Sabe”, “Nada a Ver”, “Já Cansei de te Ouvir Falar” e a sensacional “Surtei” no coco. Acachapante. Assim como o carimbó roqueiro de “Hotel Cervantes” e o hino analógico “Mundo Moderno”. Até um jornalista amigo meu, que está muito, mas muito longe mesmo de ser fã da banda, deixou escapar no final: “Showzão!”. Como sempre…

O Pato Fu foi tecnicamente impecável, mas recebido com uma certa frieza pelo público. Nem chegou perto da apoteose que foi o show deles no último Rec-Beat. Mas a culpa, definitivamente, não foi da banda, que toca a cada dia com mais empenho e vigor. Sem falar que John é um senhor guitarrista e Fernanda Takai…bem, é Fernanda Takai, e isto basta.

A introdução do tema de Chapeuzinho Vermelho serviu para a entrada de Lobão, que surpreendeu e veio com formação elétrica desta vez. Com a mão direita enfaixada devido a uma grave queimadura (num estranho acidente em que tentou acender a lareira de casa e, além de se queimar, quase queima também o gato de estimação), Lobão entrou alucinado e atacou com “Universo Paralelo” e o clássico “Ronaldo foi Pra Guerra”. Boa parte do público – eu inclusive – acabou indo embora antes do show terminar. Saldo da noite: apenas um show de encher os olhos. Muito pouco para um festival…     
  
  

Cobertura: Mada 2008 - Primeiro dia

O primeiro dia da décima edição do festival Mada mostrou que uma das suas principais qualidades torna-se também o seu maior defeito: a diversidade de estilos entre suas atrações. Se por um lado é saudável privilegiar as diferenças, por outro, tamanha falta de uniformidade entre as atrações deixa todos (público e imprensa) um tanto tontos e confusos: teve poesia eletrônica musicada, indie, reggae, rock carioca (terrível, por sinal), rockão, punk-eletrificado-uruguaio e...O Rappa.. Difícil assimilar tanta variedade em uma só noite.

Outra coisa que chama a atenção é o comportamento do público do festival. Poucos shows empolgam os pagantes do Mada, dispersos e desinteressados do que acontece no palco na maior parte do tempo. Exceção feita ao Rappa, único momento de catarse do primeiro dia. Fora eles, a indiferença reinava soberana.

A estrutura da Arena do Imirá continua impressionando. Dois palcos gigantes ladeados que, pelo menos na primiera noite, ofereceram ótima estrura técnica para os artistas.

Um público ainda bem minguado conferiu o irregular show de abertura do talentoso Poetas Elétricos. Se antes a banda primava acertadamente pela palavra e deixava a música apenas como pano de fundo, agora resolveu empatar o jogo. A música deixou de ser um elemento secundário para dar uma roupagem um tanto equivocada às novas composições idem. Pairou no ar uma mistura de Titãs com Blitz, empobrecendo alguns bons versos na tentativa infeliz de soar engraçadinho com trocadilhos bem pobres, vide “Jessica Lange/ Jessica Longe, Jessica Lounge”. Inegável que há talento na banda, mas ele ficava mais evidente em fases passadas.

Selecionada através do Radar Indie, a Amps & Lina teve um começo de show bem atribulado. Nervosos, desafinaram nas duas primeiras músicas, ficaram sem som no violino até metade da apresentação e as coisas pareceram fluir mesmo apenas nas duas últimas músicas. Tocando para um público um pouquinho maior que o do Poetas Elétricos, o Amps & Lina acabou não repetindo a excelente apresentação que fizera no Pátio do Rock do ano passado. Mas também não comprometeu. No mais, é aquela velha coisa: não existe meio-termo na corda bamba em que a banda se equilibra: aprecia-se ou rejeita-se à primeira vista. Não foi diferente em Natal.

Constrangedor mesmo foi o tal do NV, banda carioca que consegue piorar ainda mais a dialética paulistana “charliebrowoniana”. Com letras pobres (e bota pobre nisso) que poderiam servir perfeitamente como trilha sonora de academia de musculação (na linha “seja forte, ame a natureza e preze amigos que não têm preço”), o grupo fará um favor aos ouvidos e cérebros alheios se encerrar suas atividades hoje. Aliás, ontem…

Quem vem evoluindo a olhos vistos em cada apresentação é o Sweet Fanny Adams. Com domínio de palco, técnica apurada e boas composições na linha pós-Strokes, o grupo fez uma apresentação impecável, mas foi recebido com indiferença pelo frio público potiguar.

A coisa mudou um pouco de figura com o local Rastafeeling. Banda de reggae redondinha, muito bem ensaiada, com boas músicas em português e inglês, foi a única a despertar interesse na noite fora o Rappa. Goste-se ou não de reggae (eu detesto), não dá para não reconhecer que é uma boa banda do estilo.

Das atrações nacionais, quem fez o melhor show foi o excelente Brand New Hate. Banda com ótima pegada, presença de palco e uma sonoridade marcante que casa velocidade com rock de raiz e uma urgência juvenil que também pode ser chamada de raça. Eis uma banda que mostra vontade em cena, passa a nítida sensação de estar se divertindo no palco e faz quem está fora dele se divertir pacas também. Belíssimo grupo potiguar com uma estrada promissora pela frente. Mas, infelizmente, foi solenemente ignorado pelo público.

O mesmo aconteceu com o inclassificável Motosierra, dono do melhor show da noite, e de um dos melhores que já vi na vida. Com uma sonoridade única, que mescla a pegada do punk com doses cavalares de hardcore super-acelerado e consistente com riffões contagiantes, ninguém parecia dar bola para a maravilhosa apresentação que o grupo fazia no palco. Não adiantou chamar palavrões em português ou mesmo mostrar a bunda para chamar a atenção. Nem tampouco convidar um cara e uma menina da platéia para uma versão desajeitada e deliciosa de “Rock n’ Roll All Night”, do Kiss, que fechou a apresentação dos uruguaios. O público queria o mais do mesmo do mais do mesmo do Rappa…

E ele veio. Após fogos de artifício promovidos por um dos patrocinadores e aqueles efeitos especiais utilizados em finais de copa do mundo, Falcão surgiu para o delírio das poucas mais de quatro mil pessoas, que compareceram ao local apenas para cantar os sucessos dos cariocas, todos eles vertidos em chatíssimas versões dub, de dar sono em qualquer um que não é fã de carteirinha da banda. Foi a senha para dormir mesmo, que ainda teria muito chão no segundo dia de festival.