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Cobertura: Conexão Rio-Recife

Algumas coisas ficaram bem claras neste Conexão Rio-Recife, evento realizado no espaço externo do Armazém 14:

a) O show da Nação Zumbi vale cada centavo dos salgados R$ 35,00 cobrados pelo ingresso (R$ 40,00 comprado na hora).

b) O público da Nação Zumbi, infelizmente,  não tem esse poder aquisitivo.

c) Eita trequinho horroroso esse tal de Monobloco, sô! Em uma palavra: golpe

d) O funk carioca é o nosso punk: periférico, auto-sustentável, vindo das classes sociais menos favorecidas e com temáticas políticas tão ou mais fortes do que a das bandas que originaram o punk.

e) A playbozada que compareceu em massa ao evento não tem a menor noção do que é o “Funk das Armasâ€. Quase ninguém ali conhecia o “parapa papá papá 

f) Como todo mortal, tenho meus preconceitos, e eles ficaram evidentes no evento: não tenho a menor simpatia pela elite deste país, ou de qualquer outro…

Vamos lá…

Uma concentração assustadora de jovens da elite pernambucana se fazia presente em frente ao Armazém 14. Gente que parecia muito mais interessada em ver e ser vista do que com os shows que assistiria logo mais. Salões de beleza devem ter faturado como nunca no sábado à tarde: jovens bem produzidas, de cabelo escovado, maquiadas e vestidas como se fossem para alguma danceteria da moda. Os caras, todos com pinta de “pegadorâ€, exibiam seus carrões e trajavam roupas de marca, muito preocupados em chamar a atenção das garotas escovadas. E nem sinal do público da Nação Zumbi. Era tanto playboy e patricinha rondando o local que demorei horas para me convencer de que estava prestes a ver um show da Nação Zumbi. Ali, não havia lugar para confronto de classes. Uma só reinava soberana, impoluta e intocável: a classe média-alta (muito mais “alta†do que “média”, diga-se de passagem). Chegava a ser engraçado. Lembrava um fenômeno, verdadeira praga do início dos anos 90 aqui no Recife, chamado “pagoderiaâ€, onde jovens de classe média-alta iam escutar pagode estilizado na vã esperança de catar uma patricinha. Tempos difíceis essa tal da adolescência. Todo o mais era mero pretexto para se dar bem, com todo mundo pouco se importando com o que ouvia ou deixava de ouvir. Foi a mesma coisa ontem.

Pontualmente a meia-noite a Nação Zumbi entrou em cena. Abriram com “Bossa Nostra†e emendaram com “Hoje, Amanhã e Depoisâ€. Alguns poucos fãs se concentravam na frente do palco, boa parte deles formado por jornalistas e fotógrafos que estavam ali a trabalho. Os demais viam a apresentação um pouco assustados, mas extremamente receptivos e educados. Tanto que deu para ficar de forma sossegada na frente do palco durante as execuções de “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada†e “Quando a Maré Encherâ€, pois nenhuma tentativa de formação de roda, nem a mais tímida delas, foi manifestada. A banda mostrou um profissionalismo e uma coragem incríveis, e mesmo sabendo que estava tocando para um público que nitidamente não era o dela, deu prioridade ao repertório do “Fome de Tudoâ€. E, quando tocavam algo da época de Chico Science, o faziam em releituras mais lentas, mais trabalhadas e menos palatáveis. Tudo muito bem feito, mas longe de entregar fácil o jogo. Tocaram durante uma hora e meia, e, os que prestaram atenção ao show ficaram extremamente impressionados com o que viam e ouviam. O resto estava mais preocupado em circular mesmo, e parecia não ver a hora de o Monobloco subir no palco…

Ah, Pedro Luís, eu tinha tanto respeito pelo senhor e pela sua Parede. Mas o que você oferece ao público com o seu Monobloco é um bando de samba pasteurizado, um repertório de covers estilizados de músicas de Tim Maia, Jorge Ben, sucessos de Elba Ramalho e de Alceu Valença. Um festival de sucessos (dos outros) travestidos em releituras constrangedoras de tão ruins, insípidas, artificiais. Um verdadeiro exército de percussionistas no palco fazendo um sonzinho tão mixuruca que só não dava pena porque a elite pernambucana engolia aquilo como se fosse tocado por seus próprios autores, a coisa mais rara e difícil de ouvir por aí. E tome “Morena Tropicanaâ€, “Banho de Cheiroâ€, “Que Beleza (Imunização Racional)â€, “Descobridor dos Sete Mares†e “Fio-Maravilha†tocados em versões “sambinha†tão sem-vergonha que até a Recife FM teria vergonha de colocar em sua programação.

Só me vinha uma palavra na cabeça: “golpeâ€. Bandinha cover das mais desprezíveis. E todo mundo achando o máximo. Ah, Pedro Luís, como eu te respeitava…O engraçado é que o grande fracasso popular do repertório acabou sendo justamente “Rap do Realâ€, uma das poucas autorais e que ninguém ali sabia o que era, todo mundo de braço cruzado parecendo perguntar: “que raio de música é essa que não estou reconhecendo?†Triste. E o pior é que eles voltam em breve. No dia 17 de julho vão tocar num projeto chamado “Eu Faço é Culturaâ€. O nome é risível para o que foi apresentado ali. Quando você pensa que nada pode ser pior, eles entoam o corinho: “Uh, sai da frente/ sai da frente que o Monobloco é chapa-quenteâ€.

Ainda no palco, os incontáveis integrantes do Monobloco chamaram ao palco a dupla de Mcs Jr e Leonardo, que, tendo a batucada do grupo como base, cantou seus maiores sucessos, que ali não repercutiam nada. Ninguém conhecia nenhuma das versões do “Rap das Armasâ€. O Monobloco enfim deu a graça da sua ausência e deixou o palco para a dupla, que, amparada por um DJ, soltou os funks mais verborrágicos e interessantes já criados por alguém. E ainda desabafaram: “por conta do DVD pirata do filme “Tropa de Elite” muita gente vem relacionando o nosso nome ao crime-organizado, por causa de uma versão da música que não é nossa. Nós, em 17 anos de carreira, nunca fizemos apologia ao crime. Nós só fazemos apologia a Jesusâ€. E, infelizmente, o único refrão cantado pelo público foi “eu só quero é ser feliz/ andar tranqüilamente na favela onde nasci…â€, pois, além deste, ninguém conhecia nenhum trecho de letra de nenhuma das músicas deles. Nem o parapapa parapapa. Alguns playboys, mais exaltados e menos educados, ainda deram dedadas para o palco e rumaram em direção a saída. E foi um festival de carrão saindo do estacionamento da Livraria Cultura. E uma fórmula parecia clara ali: quanto mais possante e caro o carrão, maior a arrogância e falta de educação de seus donos.

Não, definitivamente eu não respeito a elite. Não consigo respeitar quem não respeita dois sujeitos da periferia do Rio de Janeiro que venceram na vida fazendo música, ainda que para ela, a elite, aquilo não passasse do maior horror. Horror, eles não sabem, é o Monobloco…  

Cobertura: Abril pro Rock - Gamma Ray e Helloween

Cobertura feita por Bruno Arrais

Chevrolet Hall, 27 de abril de 2008, última noite da 16ª edição do festival Abril Pro Rock; um domingo – dia um pouco inconveniente para sair de casa à noite para um festival de rock, ainda mais pela enorme quantidade de chuva despejada dos céus. Mesmo assim, cerca de cinco mil pessoas de toda a região Nordeste reuniram-se na casa de show para assistir às apresentações de duas das mais antigas e influentes bandas de um nicho muito caro aos apreciadores do heavy metal: o heavy melódico.

Ao Helloween podemos atribuir a criação desse gênero. Foram eles que em meados da década de 80 trouxeram à vida os álbuns que definiriam os caminhos a serem trilhados por milhares de bandas seguidoras do estilo em todo o mundo. Já o Gamma Ray é uma banda mais “novaâ€, formada por Kai Hansen – fundador do Helloween –, que no final do ano de 1988 deixou a banda incomodado com o caminho que ela vinha trilhando – grandes turnês, envolvimento de membros com drogas, desentendimentos pessoais entre os integrantes etc.

Durante toda a década de 90 essas duas bandas levaram suas carreiras num certo clima de rivalidade; uma coisa meio Beatles e Rolling Stones – guardadas as devidas proporções – do metal. Mas, agora, 20 anos depois, as duas uniram forças para viajar pelo mundo tocando juntas na turnê Hellish Rock ‘07 / ‘08.

No último mês a turnê tomou o rumo da América do Sul, com passagem pelo Brasil, incluindo Recife em seu roteiro de viagem; o que nos trás de volta ao Chevrolet Hall na noite do domingo 27.

Às 19h já havia uma grande concentração de headbangers na entrada da casa de shows. Às 20h o público adentrou as portas para assistir à apresentação. Havia um clima de grande expectativa, bem como de confraternização, afinal de contas as duas bandas eram velhas conhecidas do público pernambucano (e alagoano e baiano e paraibano…) e a vinda delas era esperada há mais de 15 anos – falo por experiência própria. Este evento foi, para a maioria do público ali presente, a realização de um sonho antigo.

Finalmente, às 21h, aproximadamente, os alto-falantes anunciaram a primeira banda a subir ao palco: Gamma Ray. Quando as cortinas se abriram, todos os presentes saudaram a banda com grande calor. E eles abriram o set com Into the Storm, primeira faixa do último disco, Land of the Free 2, que foi seguida pela clássica Heaven Can Wait – do álbum Heading for Tomorrow, seu debut –, que fez a platéia vibrar mais ainda e cantar junto cada palavra da letra. E foi uma noite de clássicos. Kai Hansen e seus companheiros executaram músicas de toda sua carreira, prestigiando o público com suas favoritas e deixando todos muito satisfeitos.

Para mim, particularmente, um dos grandes momentos do show se deu quando o Gamma Ray tocou Land of the Free – na minha humilde opinião seu clássico maior –, emendando-a com a espetacular Heavy Metal Universe, dando a costumeira parada para que a platéia cantasse em uníssono o refrão “It´s a Heavy Metal Universe!!!†e batesse palmas. Nesse momento Hansen tomou nas mãos uma bandeira do Brasil e disse que era a bandeira do universo do metal, cativando de vez – se é que era necessário – o público. Outro grande momento foi a execução de Ride the Sky, música do disco Walls of Jericho, primeiro LP do Helloween, de 1985. Com esta música o Gamma Ray incendiou a platéia, que se espremeu o mais próximo possível do palco, completamente bestificada, cantando a plenos pulmões.

Foi um grande show, em que a banda mostrou que, apesar de somar aproximadamente duas décadas de estrada, continua em grande forma, pronta para encarar mais duas décadas de composição, gravação e turnês; como também mostraria o Helloween, em seguida. Amém.

Após um breve, mas tenso, momento de espera, a apresentação do Helloween fez a alegria dos presentes, muitos dos quais, fãs da banda por mais de vinte anos; metaleiros das antigas. Andi Deris, Michael Weikath, Markus Groβkopf e os “novatos†Sascha Gerstner (guitarra) e Dani Löble (bateria), fizeram uma apresentação impecável, digna de uma carreira sólida de quase três décadas de existência.

A exemplo do Gamma Ray, a apresentação do Helloween prestigiou o público com músicas de todas as fases de sua carreira. A abertura foi feita com a canção épica de mais de 13 minutos Halloween, do álbum clássico Keeper of the Seven Keys, Part 1, pondo imediatamente abaixo o Chevrolet Hall.  Na seqüência, Sole Survivor, primeiro hit da Era Deris, música ultra-pesada que levou os bangers à loucura, deixando muitos, mais veteranos como eu, com uma baita dor no pescoço.

E foi uma verdadeira celebração, hit atrás de hit: March of Time (Keeper 2); a nova As Long As I Fall, primeiro single retirado do álbum Gambling With the Devil, que agitou principalmente os fãs mais novos; outra do Keeper 1, a balada A Tale That Wasn’t Right; seguida de um solo de bateria endiabrado de Dani Löble, que aproveitou inclusive para nos prestar uma homenagem incluindo ritmos brasileiros em seu solo; King For a Thousand Years, do recente Keepers of the Seven Keys – The Legacy; Eagle Fly Free, levou todo mundo à loucura, cantando e batendo palmas; depois The Bells From the Seven Hells; I Wish I Could Fly; e, para “encerrarâ€, outro clássico da Era Kiske, a faixa 5 do Keeper of the Seven Keys, Part 2, Dr. Stein.

A banda saiu do palco deixando o público sedento por mais, gritando “Happy, happy, Helloween†e “Helloween, helloweenâ€. Após alguns minutos voltaram e executaram um longo medley que felizmente aplacou a sede dos fãs: I Can / Where the Rain Grows / Perfect Gentleman / Power / Keeper of the Seven Keys. Ao fim do medley, abandonaram o palco novamente, deixando o público em grande expectativa, pois a tour Hellish Rock trazia uma “surpresa†especial: uma apresentação conjunta das duas bandas.

E como prometido, após um breve intervalo ao fim do show do Helloween, as duas bandas subiram juntas no palco para o êxtase de seus fãs, antigos e novos. Foi um verdadeiro encontro de titãs, jamais visto no Recife. Já fui a muitos shows de Heavy Metal aqui na cidade – Angra (com e sem André Matos e companhia), Merciful Fate, Blind Guardian, Stratovarius, Blaze, Di´Anno etc. –, mas nenhum foi tão gratificante quanto este. Juntas, as duas bandas tocaram dois dos maiores clássicos do Helloween, da época em que Kai Hansen ainda integrava a banda: Future World e I Want Out. Foi o momento mais belo de toda a noite, em especial quando Kai Hansen e Michael Weikath tocaram o duelo de guitarras de Future World lado a lado, com grandes sorrisos nos rotos.

Uma noite inesquecível como Recife nunca viu. Uma noite para guardar na memória e torcer que não demore mais 15 anos para que se repita. Torçamos para que os produtores locais continuem acreditando no verdadeiro rock e proporcionem mais espetáculos dessa magnitude com maior freqüência. Stay heavy!

Cobertura: Abril pro Rock 2008 - Segundo dia

A cobertura dos shows do palco 2 foi feita por Paulo Floro, editor da excelente revista eletrônica “O Grito†www.revistaogrito.com 

Chevrolet Hall, por volta das 17h. Com os portões ainda fechados, a banda que acompanha Lobão em seu Acústico MTV passa o som. Correndo contra o tempo, uma vez que o vôo que trazia Lobão e banda atrasou, assim como a liberação de todos os instrumentos de seu show no aeroporto, o cantor carioca tenta ser rápido. Na “platéiaâ€, apenas alguns jornalistas privilegiados em ver tal cena, a maioria deles impressionado com a quantidade e diversidade de violões a serem usados. Largadão, de bermuda e camisa branca, fone de ouvido, Lobão arranha riffs de “A Vida é Doceâ€, “Essa Noite Nãoâ€, “Vou te Levarâ€. Os portões são abertos enquanto ele ainda está passando o som. O inevitável acontece: o público, que ia entrando aos poucos, se maravilha com a cena. Uma moça loira pede para eu tirar uma foto dela tendo como pano de fundo Lobão ao violão. A cena se repete com outras pessoas. De repente, o lobo sentencia: “estou me dando por satisfeito. Acho que é isso. Estou empolgadoâ€. Aplausos. Jornalistas e público aplaudem um pequeno esboço do que seria o show de nove horas mais tarde. Lobão agradece com a cabeça, e diz a um dos músicos que está bastante entusiasmado com o show.

É um Lobão de fato empolgado que encontro por volta das três da manhã em seu camarim. Solícito, educado e inteligentíssimo, faz questão de atender ao repórter de um site com um gravadorzinho na mão com a mesma atenção que dedicou às duas emissoras de TV que o entrevistaram antes de mim. Satisfeito e feliz com o depoimento gravado (que você confere em breve aqui), desço para ver o show.

Pausa para uma breve volta no tempo. Em sua primeira perna (os dois primeiros dias) a grande atenção do festival, quem diria, acabou se voltando toda para Céu. Boa parte do público de cerca de quatro mil pessoas (tinha pelo menos o dobro de gente do dia anterior) foi ao APR naquela noite apenas para vê-la. E saiu bem satisfeita com o que viu. Mas, tecnicamente falando, quem mais chamou os holofotes para si foi o surpreendente show do Superguidis no palco dois e a inacreditável apresentação da banda neozelandesa The Datsuns, que infelizmente pegou um público já massacrado pela maratona imposta pelas 12 atrações anteriores. E, diga-se de passagem, o Chevrolet Hall não tratou lá com muito respeito o público do festival.

Aos fatos: um espetinho, de frango ou de carne, custava três reais. O mesmo preço era cobrado pela cerveja. O refrigerante era vendido por R$2,50, enquanto que a água tinha o preço desértico de dois reais. Ou seja, a situação não era fácil. Caso o cidadão não tivesse a carteira recheada, corria o sério risco de passar sede ou fome. E muitos passaram. Em evento que durou quase doze horas e que contou com 15 atrações, era impossível não sentir sede ou fome entre um show e outro…No pavilhão do Centro de Convenções, ao menos, as coisas eram mais baratas.

Aos shows:

Palco 2 - por Paulo Floro 

Há quem diga - pejorativamente - que o Sweet Fanny Adams tem um som “tipo exportação”. E esta é uma feliz constatação: nenhum elemento de suas músicas remetem a algo feito aqui. Suas referências indie-rock se apresentam desde o visual até os riffs, mostrando uma preocupação estética como dificilmente se vê entre bandas estreantes brasileiras.

O SFA lançou esta semana o novo EP “Fanny You’re No Fun” pelo selo Bazuka Discos e tocaram neste show do Abril todas as faixas do disco. Houve alguns problemas técnicos, mas nada que comprometesse o resultado final. E para quem reclamasse de pouca presença de palco da banda, houve até um convite para garotas subirem no palco em “C’Mon Girls”. No entanto, só uma reinou no palco enquanto filmava os integrantes. 

E parecia que neste sábado o palco 2 preenchia a proposta de renovação de bandas e vitrine dos novos nomes da cena independente. O Violins, de Goiania desfilou seu rock em português e conseguiu agradar aos fãs. São as letras o que mais chama atenção na banda. As composições de Beto Cupertino são de uma sofisticação quase inédita no rock independente nacional. O público se esvaziava porque, apesar das guitarras contagiantes, o Violins não são daqueles que conquistam à primeira audição.

A expectativa do show seguinte fez todos se aproximarem do palco antes mesmo de CéU no palco principal terminar de cantar. Era Vitor Araújo e seu piano, desde já a atração mais inusitada na história do Abril Pro Rock. Vitor faz cara de gozo, joga o cabelo e sobra afetação em sua apresentação. É o que está chamando a atenção de todo o país: seu jeito de performer dá nova vida a um instrumento tão hostilizado pela música pop. E ele não se satisfaz apenas com o instrumento, não cabe no formato banquinho-piano. 

Após cada música, lá está Vitor falando com o público, tentando ser polêmico (”quem quer ouvir música pernambucana nas rádios?”) e gerando ansiedade para sua própria apresentação (”quem sabe eu toco aquela música do Radiohead?”). De fato, seu show emociona. Mesmo sob um calor desgraçado, num formato que destoava de todo o festival, ninguém arredou o pé. Tudo tão impressioante que descontamos até o falatório. Nada que um consultor de imagem não resolva. 

Com dual-disc lançado este mês pela Deck-disc e apresentações pelo país, Vitor, de 18 anos tem tudo para ser fenômeno pop de 2008. 

As bandas seguintes, Rockassetes, de Aracaju, e Superguidis, do Rio Grande do Sul fizeram apresentações que poderiam passar despercebidas. Talvez fosse o cansaço da maratona de shows ou outra intempérie, mas o fato é que o rock dos dois parecia feito no piloto automáticos. Tão “normais” que não incita nenhum tipo de reação ou sentimento além da apatia.

O Rockassetes contou com fãs que cantavam todas as músicas na frente do palco. Dava pra perceber as influências de Beatles (nas músicas mais melódicas) e Jovem Guarda. Pela segunda vez no Recife, a banda bem que merece outra oportunidade, mas ali, pareceu “só mais um show”. 

Já o Superguidis não empolgou em nenhum momento. O que é algo para ficar surpreso, sobretudo para uma banda eleita revelação em 2006, ano do lançamento de seu disco homônimo. Nenhuma música tocada no show ameaçou ultrapassar o limite do tédio. Sua curta apresentação serviu apenas de intervalo para a atração principal - e essa não era, definitivamente a proposta do palco 2.

Por fim, o trio Pata de Elefante, também gaúcho, conseguiu chamar atenção com seu som instrumental. Baseados no que há de mais básico no rock, soul, blues e psicodelia, a banda causou estranheza no início mas logo impressionou o já cansado público com sua viagem sensorial. Como era a penúltima apresentação do segundo dia (muita gente nem mais assistia ao grupo e fazia plantão em frente ao palco de Lobão), muito das características do grupo não puderam ser percebidas. Vale a pena ouvir o disco “Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulhaâ€, para experimentar a sinestesia e texturas do som do Pata de Elefante. 
 

Palco 3 – por Hugo Montarroyos

O pop ainda verde do paraibano Madalena Moog abriu os trabalhos da noite. A banda até demonstra ter potencial, principalmente na parte instrumental. O problema é que seu vocalista estava extremamente nervoso, e desafinou horrores. Sua voz, por vezes, chegava a dar agonia. Mas no geral ficou clara a proposta deles, que foi até bem executada em palco: pop leve e descontraído, com backing vocal e percussão feminina, dando um certo charme ao conjunto. Só precisa amadurecer mais.

Quem acabou comprometendo foi o Erro de Transmissão. Ao contrário do ótimo show que fizeram na última edição do Pátio de São Pedro, desta vez eles acabaram destoando do resto da programação. Fizeram uma apresentação bem fraca mesmo, talvez pelo nervosismo de chegarem tão cedo a um dos principais palcos do País. A palavra “verde†aqui se aplica com muito mais justiça ao Erro de Transmissão do que ao Madalena Moog. Nada que tempo e ensaio (e maturidade e maior vivência de mundo) não resolvam. Mas ontem ficou evidente que eles estavam muito aquém de todo o restante da programação.

O ótimo e escrachado Barbiebill, de Natal, nem deu bola para os problemas de som que enfrentaram no palco 3. Destilaram inteligência, ironia e safadeza debaixo de camadas de batidas eletrônicas e algumas jóias como “Raspadinhaâ€. Ainda “lamentaram profundamente†a aposentadoria artística de Gretchen, rebolaram, esbanjaram presença de palco e fizeram o mais difícil de tudo: soaram espontâneos. A impressão que passa é que eles são do mesmo jeito fora do palco. Belo show que divertiu bastante.

Palco 1 – por Hugo Montarroyos

Os acordes de â€Mundo Moderno†ecoaram pelo Chevrolet Hall e indicaram que estava para acontecer um dos melhores shows da noite. Com o capeta no corpo, Gabriel destilou todos os seus riffs poderosos, ditou as coreografias e mandou pauladas como “Nada a Verâ€, “Paciência†e “Você Sabeâ€. Foi a primeira apresentação da noite que colocou boa parte do público para dançar. Mas o grande destaque – e surpresa – foi a inclusão do clássico “1,2,3,4â€, da antiga banda de Gabriel, Litlle Quail and The Mad Birds, em releitura bem Autoramas. Terminaram o show agradecendo ao setor de “Achados e Perdidos†do Aeroporto Internacional dos Guararapesâ€, que recuperou um monte de pedais de guitarra que ele julgava ter sido extraviado (leia entrevista com Gabriel a seguir).

Wander Wildner fez um dos shows mais inusitados de sua carreira. Primeiro preferiu dar ênfase ao repertório do novo “La Cancion Inesperadaâ€. Depois acabou tocando “Mantra das Possibilidadesâ€, num pequeno aquecimento do que viria: versões vertidas para o frevo, com a ajuda de músicos da Orquestra Contemporânea de Olinda, de “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro†e “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amoâ€, em que Wander trocou o “verso†“eu tô de porre†para “eu tô porretaâ€. E o Abril pro Rock caiu no frevo pelas mãos do gaúcho inventor do Punk Brega. Genial!

Num país onde alguém do quilate de Ivete Sangalo é alçada a condição de rainha da dita MPB, CéU só poderia ser considerada a coisa mais sofisticada da face da Terra. Mas não é. É apenas um produto superestimado consumido por uma classe média iletrada que se guia pela “Veja” e pelo “Fantástico” e “Domingão do Faustão”. Até alcança alguns bons resultados quando tenta dialogar com a obra do genial Fela Kuti. Mas a forçada de barra para parecer cool e descolada chega a ser insuportável. Virou a nova queridinha dos jovens alternativos, a cantora que as menininhas de 16 anos acham legal dizer que gostam. Porém, Fernanda Takai, com toda a sua simplicidade e apelo zero consegue ser trocentas mil vezes melhor e mais competente que CéU, que não é melhor nem pior do que qualquer outra nova cantora da MPB. É apenas mais uma, embora o público do Abril pro Rock, extremamente receptivo ao seu show, discorde.

O doidaço Júpiter Maçã demorou a sintonizar bem seu show, que também foi muito bem recebido pelo público. Se por vezes rendia bons momentos como em “Síndrome do Pânicoâ€, tratava logo de levar tudo ao infinito da chatice com a insuportavelmente longa e enfadonha “As Mesmas Coisasâ€. Depois a coisa engrenou, e ele chamou algumas garotas e uns carinhas para dançarem com ele no palco, e terminou em clima de apoteose com a genial “Um Lugar do Caralhoâ€, tocada aqui pela primeira vez no próprio Abril pro Rock, em 1998, quando Júpiter ainda era um cara tímido, de cabelo curto e óculos que lhe rendiam um visual nerd. Quem diria que a música se transformaria num clássico…

Assustador mesmo foi o show do fenomenal The Datsuns, que fazem um rockão setentão com o pé fundo no acelerador. Impressionante a facilidade com que os caras conseguem incendiar tudo. Tocam com uma naturalidade inversamente proporcional a sonzeira que produzem. “Who Are Youâ€, “Sittin Prettyâ€, “Girls Best Friend†e “Human Error†foram o bastante para perceber que eles não pegavam leve. Um músico ao meu lado não resistiu e comentou: “não adianta, é o tipo de som que só gringo sabe fazerâ€. Vai ver que é mesmo. Infelizmente o público já estava bem cansado àquela altura do campeonato, e pouca gente conseguiu curtir o show de pé.

Lobão nos brindou com algumas surpresas em seu show. Entrando em cena já lá pelas três da matina, tratou de acrescentar coisas antigas e fora do repertório do acústico oficial, como “Robô, Robô†e “Ronaldo Foi Pra Guerraâ€. Acompanhado de uma banda impecável, comoveu metade do público (a outra metade, já exausta, não agüentou a espera e foi pra casa) com baladas como “Por Tudo que For†e “Chorando Pelo Campoâ€. Do ótimo e desprezado disco “A Noiteâ€, lançado em 1998, tirou do bolso a sagaz “Samba da Caixa-Pretaâ€. Encantou com “A Queda†e na soturna “A Vida é Doceâ€, tocou “Rádio Blá†e “Corações Psicodélicosâ€. Saiu do palco e voltou para o bis, formado por “Vou te Levar†e “Revancheâ€. E saiu, definitivamente de cena e apressado, dizendo no backstage que já era quatro e vinte da manhã e correndo com mala em punho para o aeroporto.
O único vacilo de seu show (e muito feio) foi o cover de “Gitãâ€, de Raul Seixas. Logo Lobão, que tanto criticou tanta gente por tanto tempo por viver fazendo releituras das obras alheias, algo que ele classificava “sutilmente†como “gozar com o pau dos outrosâ€, para depois, ele próprio acabar “gozando com o pau de Raulzito”. Desnecessário e contraditório, para dizer o mínimo. No fim das contas, Lobão virou prisioneiro de seu próprio discurso. Vai ser difícil agora se libertar dele. 

Cobertura: Abril pro Rock 2008 - Primeiro dia

Paulo Floro, editor da excelente revista eletrônica “O Grito†www.revistaogrito.com , foi o responsável pela cobertura dos shows do palco 2.

As mudanças de proposta e de local do Abril pro Rock pareceram não combinar muito. Se a meta era – e foi atingida – mais realista, com objetivo de atrair pelo menos três mil pessoas por noite, essas três mil pessoas mais pareciam um grupinho muito pequeno diante de um lugar tão grande como o Chevrolet Hall. Ou seja, a impressão que passava era a de um vazio permanente, de gente faltando e espaço sobrando. Enfim, para quem não estava a par das novas ambições – mais enxutas e mais modestas – do festival, foi difícil esconder uma expressão de desolação e a sensação de fracasso. Para quem sabia do novo paradigma que o APR tentava estabelecer para si, restava a certeza de que a missão estava cumprida.

Em compensação, no quesito qualidade das atrações, a coisa melhorou muito. Show ruim, daqueles de virar a cara ou encher o saco de qualquer cristão, não teve um sequer. Apenas alguns melhores do que outros e alguns regulares, e outros que poderiam ter seu tempo reduzido (caso do Bad Brains). No mais, tudo certinho, não fosse um detalhe. O som do Chevrolet Hall colaborou pouco, e até o espectador achar a posição ideal para curtir o show sem maiores interferências (microfonias, som de baixo estourado) levava um certo tempo. O ideal é ficar do meio para trás, onde o som é recebido de forma mais pura e chega mais cristalino ao seu receptor. Mais à frente a coisa fica complicada.

Mas, no frigir dos ovos, uma decepção era indisfarçável. Foi triste ver tão pouca gente presenciar uma apresentação tão boa e histórica quanto a do New York Dolls. Frustrante mesmo. E, de encher os olhos era ver Wander Wildner pogando feito criança na platéia ao som do NYD. Ele, sim, conseguiu ser alegre o tempo inteiro ontem. Sua alegria era absolutamente contagiante, e a gente até esquecia a vergonha (nessas horas bate uma vergonha desgraçada) de viver num local onde o público não sabe reconhecer a pedra filosofal de um estilo, lenda viva capaz de lotar qualquer show em qualquer lugar um pouco mais informado e civilizado.

Palco dois – por Paulo Floro

O Project 666 dava o recado: aquela era a noite do peso no Abril Pro Rock, sem a presença de headbangers e sua disputa de “bate-cabelo”. Teve a vantagem de pegar um público disposto que acabara de chegar no Chevrolet Hall, e sua apresentação não foi acometida pelo cansaço da platéia - até o New York Dolls sofreram com isso.
Sem ninguém deitado pelos cantos da casa, o Project 666 despejou toda a agressividade e fez uma ótima abertura dos trabalhos de peso da noite. O interessante na banda é que, apesar da obviedade do nome, da proposta sem muita inovação, o som consegue chamar atenção até dos detratores do metal (ou rock pesado, por extensão). É difícil ficar incólume àquela fúria. Deve ser coisa do demo mesmo.
O “projeto” tem influências bem acabadas de vários estilos de metal. E parece que conseguiram um público também heterogêneo. Tomados pela catarse promovida pelo vocalista Rodrigo Colaço, estavam metaleiros, adolescentes do hardcore, mods e - juro que dava para encontrar - indies.
Já a Zumbis do Espaço não manteve o carisma do Project 666. Muita gente que insistia em fazer roda punk em frente ao palco se divertiu bastante, mas não estavam interessados na banda. Os paulistas fizeram um show homogêneo, nada marcante. Apesar de bem humorado, ninguém conseguia captar as referências do rock nerd da banda.
O apelo country do Zumbis passou desapercebido, mas encontrou resposta em alguns fãs antigos, o que para uma banda que faz seu primeiro show no Nordeste, não significa muita coisa. Quem sabe em outra oportunidade eles consigam arregimentar mais adeptos fiéis. Antes de terminar, as últimas cartadas: o hit “Três noves invertidos” e os riffs clássicos de “Iron Man”, do Black Sabbath.

O show do Vamoz! veio sem surpresas, mas correspondeu às expectativas dos fãs. Veteranos na cena indie de Pernambuco, a banda coleciona apresentações em palcos importantes da cidade, e pela boa recepção de seu último disco “Damned Rock n’ Roll” precisa ir a lugares mais distantes. O Vamoz! precisa sair do Recife logo.
Sua apresentação foi comprometida pelo marasmo que alastrava pelo local, e perto do fim só ficaram os muito pacientes, os fãs e aqueles que descobriram o som cheio de elementos do rock old school do Vamoz!. Lembrando que a banda foi uma exceção na política da organização deste ano do APR que privilegiou bandas que não tinham tocado em palcos gratuitos da cidade ou mesmo no próprio festival. Agora, o Vamoz! já tem dois Abril Pro Rock no currículo (a primeira vez foi em 2004). Precisa de mais nada

Palco 3 – por Hugo Montarroyos

Com fome de palco, os caras da AMP entraram em ação por volta das 21h, despejando seus riffs cavalares na linha Queens Of The Stone Age que pareceram hipnotizar o público. Absurdamente entrosados e ensaiados, mandaram uma pedreira atrás da outra, sem intervalos, e chamaram Fabrício Nobre, do MQN, para mandar ver nos vocais de “Acidezâ€. Jornalistas de fora de Pernambuco, em uníssono, diziam que há tempos não viam surgir uma banda pernambucana tão boa. Afirmação que este que vos tecla concorda em gênero, número e grau.

“O sonho de qualquer banda independente é tocar no Abril pro Rockâ€, foi a primeira frase do bom show do The Sinks, dita pelo baixista Anderson Foca, que não escondia a emoção de tocar no festival após 11 anos de espera. Sonho realizado, tratou de brindar os presentes com rock puro e simples, emoldurando grunge e Weezer, numa combinação que soa extremamente gostosa de ouvir e que legitima o ótimo som que fazem. Se a performance de Foca é desengonçada e meio atabalhoada, é no guitarrista e vocalista Dante que as atenções acabam se concentrando. Moleque de voz boa e de presença de palco marcante, não se intimidou depois em entrar na roda-de-pogo do show do Bad Brains, e assim realizar dois sonhos em uma só noite.
Músicas absolutamente bem trabalhadas em peso e simplicidade como “Ignoredâ€, “You†e “Do You Wanna Give Up†garantiram a felicidade dos roqueiros presentes, e credenciaram, definitivamente, o The Sinks como uma das bandas mais legais a surgir no Nordeste nos últimos anos.

Palco principal – por Hugo Montarroyos

O Mukeka di Rato subiu ao palco e o vocalista Sandro tratou logo de dedicar o show ao cantor brega Adelino Nascimento, falecido naquela mesma noite, de problemas cardíacos. Donos de um dos discos mais representativos da história do punk/hc do Brasil, o indiscutível “Acabar Com Vocêâ€, acabaram extraindo dele seus melhores momentos, como “Viva a Televisão†e o clássico “Maconhaâ€. A volta do vocalista Sandro em substituição a Bebê confere ao disco – e a todo show – uma maneira mais limpa e arrojada de cantar, fazendo com que as ótimas letras do Mukeka não desaparecessem em meio a tempestade de decibéis que a banda sempre provoca por onde passa. Foi, depois do New York Dolls, o melhor show do palco principal, superando até mesmos os ídolos Bad Brains.

É complicado escrever sobre uma lenda. Sobretudo quando tal lenda ainda está viva. E mais ainda quando ela representa três gerações do hardcore (embora eles odeiem se enquadrar em tal rótulo) e tenham feito algo que a maioria prefere creditar ao The Clash: misturar a velocidade do hardcore com as batidas do reaggae (ok, o The Clash fez o mesmo, só que com o punk). Mas certas coisas não passaram despercebidas ontem.
Da formação original, restaram o baterista Earl Hudson, o guitarrista Dr. Know e o baixista Darryl Jenifer (este, quase gagá). Coube ao vocalista Israel Joseph injetar sangue novo na banda, e o contraste entre sua disposição e o cansaço dos demais integrantes era evidente. Outro ponto delicado de ser tocado é justamente aquilo que um dia soou como inovação para o Bad Brains. Se eles são ótimos, perfeitos no hardcore, nas partes violentas e mais rápidas de seu set, garantindo fácil a abertura de uma roda-gigante e animada, nas partes mais lentas e de culto rasta a coisa se tornava absurdamente monótona. Confesso que este é um defeito particular meu, e não da banda. Como adoro hardcore e detesto reggae, o Bad Brains nunca esteve em alta cota comigo, embora reconheça sua importância histórica e seu papel de divisor de águas no gênero. Mas ontem, fora Cannibal – visivelmente emocionado por ver de tão perto seus ídolos – e outros tantos, a maioria parecia concordar comigo: ficava empolgada pra valer durante as partes mais secas, cruas e violentas do show, e aproveitava para dar uma volta ou ir ao banheiro nas partes mais voltadas ao reggae. Ou simplesmente sentava quando misturavam ambas. No fim das contas, o show acabou sendo mais longo e mais chato do que precisava ser.

Uma lenda-viva chamada David Johansen entrou em cena e de cara deu a impressão de que os 38 anos que se passaram entre seu início de carreira e a noite de ontem não tinham afetado sua voz e sua presença de palco em nada. De peruca e sempre nos mostrando que Joey Ramone e Steven Tyler foram crias suas, esbanjou disposição, carisma, talento, bagagem punk. Sua voz soa tão perturbadora como era nos anos 70. Dava sinais de ser bem mais jovem do que os excelentes músicos novos que o acompanhava: Sam Yaffa (baixo), Steve Conte (guitarra) e Brian Delaney (bateria). O outro sobrevivente, o guitarrista Sylvain Sylvain, também permanecia confortavelmente conservado, uma legítima testemunha e um dos sujeitos de uma história que envolveu muito sexo, drogas e rock n’ roll. Um a um, clássicos como “Pillsâ€, “Looking For a Kiss†e “Personality Crisis†eram jogados na nossa cara. Se o show tinha um público infinitamente menor do que merecia, um clima intimista acabou se instaurando entre banda e platéia. Show que, daqui a dez anos, poucos terão o privilégio de dizer que testemunharam. Assim como hoje nos referimos com tanto carinho ao show de Chico Science e Nação Zumbi em meio ao temporal no Circo Maluco Beleza em 1996. Alheio a isso tudo e em estado de transe, Wander Wildner percorria dançando todo o Chevrolet Hall, em exercício de total contemplação e devoção e desmentindo um de seus grandes sucessos, aquele em que ele diz que não consegue ser alegre o tempo inteiro. Ontem, pelo menos durante todo o show do New York Dolls, ele conseguiu ser. Assim como todas as poucas testemunhas de tal momento histórico também conseguiram ser. Uma pena que tal alegria tenha sido compartilhada por tão poucos. Coisas de Recife

Entrevista - Superguidis

Uma das promessas da edição 2008 do April pro Rock, a banda gaúcha Superguidis se apresenta no sábado, dia 12 de abril. Dona de dois ótimos discos, “Superguidis†(2006) e “Amarga Sinfonia do Superstar†(2007), e com o terceiro já em fase de composição, a banda é uma das apostas (pelo menos minha) deste ano. Entrevistei por e-mail Lucas Pocamacha, guitarra e voz, que falou da expectativa da banda em relação ao show, do significado das letras e de como eles têm apostado no download remunerado.
Numa entrevista recente vocês declararam que um dos objetivos do Superguidis para 2008 era tocar no Abril pro Rock. Quais são as outras metas?
Tocar em todos os lugares possíveis!!! O Abril pro Rock sem dúvida é prioridade, mas no estágio em que estamos, é necessário sair e mostrar a cara em todos os lugares onde a gente conseguir.
Temos outros lugares no Nordeste que precisamos ir. Na verdade o Nordeste é um território inexplorado pra nós. Tocamos apenas em Natal.
Além disso, é muito provável que voltemos pra Argentina ainda esse ano.
Mas a grande prioridade é compor o disco novo. Já temos metade dele composto, em fase de ensaios, e pretendermos chegar no fim do ano com um disco pra gravar.
Estamos muito empolgados com o jeito que as musicas novas estão vindo. Pelo jeito vai ser um disco bem diferente do primeiro e do segundo…Seja isso bom ou ruim, heheheh…
Como tem sido a experiência do Superguidis com o download remunerado? Vocês disponibilizaram todo o disco “Amarga Sinfonia do Superstar” na net simultaneamente com seu lançamento “físico”. Tem dado resultado?
Foi muito produtiva!!! No primeiro mês faturamos uma baita grana lá. Fomos a terceira banda em faturamento, perdendo apenas pras bandas de emo…
A gente apóia muito esse tipo de iniciativa. Achamos que esse é o caminho pras coisas crescerem no futuro!

Quase todas (para não dizer todas) as letras do Superguidis são escritas na primeira pessoa e parecem relatar fatos que realmente aconteceram. É assim mesmo? Seria o caso de “O Raio que o Parta”, do primeiro disco? E, finalmente, o que diabos quer dizer “pois veja o que aconteceu/ de nada adiantou aquela correria/ perdido, ele quase morreu/ meu pobre cachorrinho ainda sem nome”? =) (Trecho da letra de “Ainda Sem Nomeâ€, música do “Amarga Sinfonia do Superstar)
Todas as nossas letras são direta ou indiretamente, sobre coisas que aconteceram conosco. Inclusive “O Raio que o Parta”.
É difícil pra gente falar sobre coisas fora do nosso dia-a-dia. Não somos tão criativos a ponto de abstrair do nosso próprio umbigo, hehehe… A nossa musica é muito sincera. Não conseguiríamos empunhar os instrumentos e tocar sobre coisas que não significam nada pra nós. Acho que esse é o fator que nos faz continuar com isso tudo. Quando chegarmos à ponto de ter que fingir alguma coisa, essa vai ser a hora de acabar a banda, saca???
Bom, sobre essa frase tu terias que conversar com o Andrio (voz e guitarra). Foi ele que fez essa música. Eu tenho a minha interpretação, assim como tu deves ter a tua, mas só ele sabe o que quis dizer!!! É isso que torna tudo mais interessante!! heheheh…
O que mudou na banda da estréia em disco de vocês em 2006 para o Superguidis de hoje?
A gente envelheceu!!! E, como eu disse na outra pergunta, somos muito sinceros e jamais conseguiríamos repetir os pontos de vista das canções do primeiro disco, por exemplo. Aqueles caras já não existem mais. Somos três anos mais velhos do que quando gravamos o primeiro disco. E três anos, na nossa idade, fazem bastante diferença.
E isso se reflete diretamente na nossa musica. Seja na forma de novas influências ou na forma de outro jeito de encarar as coisas que nos inspiram a escrever. Por exemplo, (falo por mim) hoje em dia jamais conseguiria fazer uma música como “O Banana” (canção do primeiro álbum, “Superguidisâ€). O tipo de problema que inspirou essa música é visto de uma maneira completamente diferente agora. E sem dúvida vai gerar sentimentos diferentes e letras diferentes. Acho que o pessoal notou isso já no segundo disco. A maioria achou uma coisa boa. A gente também acha.
Talvez no terceiro isso fique bem claro. Não temos a mínima vontade de nos repetirmos.

Como será o show no Abril pro Rock?
Vai ser só “sangüeraâ€!!! heheheh. Em festival não dá pra perder muito tempo com baladinhas e bate-papos, temos meia hora pra deixar bem claro por que viemos.
Vamos tocar musicas do primeiro e do segundo discos. Dependendo, até uma do terceiro. Mas isso fica pra decidir na hora.
O que o pessoal pode esperar é quatro caras com muita vontade de tocar!

Como avaliam a atual cena roqueira do Rio Grande do Sul?
Atrasada…O pessoal é meio cabeça fechada aqui. Bom, não tem nenhum festival aqui. Mais ou menos está começando o “Gig Rockâ€.
Mas tem algumas bandas…Não sei, cara…Não tenho uma opinião formada sobre a cena daqui. Gostaria muito de ter, mas não tenho.
Da cena pernambucana, o que conhecem e gostam?
Conhecemos os nossos colegas de selo da Volver e achamos muito massa!!! Eles são mais gaúchos do que a gente heheheh
Pô, não tem como deixar de citar os anos 90 e a galera do mangue beat. É uma coisa muito foda, que abriu muitas portas pra música de vanguarda no Brasil. Nós todos devemos muito a estes caras!!
Se quiser acrescentar alguma coisa o espaço é seu!
Gostaria de convocar o pessoal que organiza shows tanto em Pernambuco quanto no Nordeste inteiro a nos chamar pra tocar aí!!!

Serviço:
Confira a programação completa do Segundo dia do Abril Pro Rock 2008