Archive for Resenhas

RESENHA: Nuda - EP - Menos Cor, Mais Quem

Pode parecer fácil, mas muitas vezes é uma tarefa inglória “traduzir” uma obra musical para os leitores. Sobretudo se tal obra dialoga com elementos à primeira vista tão díspares e de encaixe tão inusitados numa primeira audição. Com o Nuda e seu EP “Menos Cor, Mais Quem” sinto a obrigação de recorrer a dois termos de caráter um tanto “sofisticado”, ou pelo menos, assim como o grupo em questão, longe do usual: HISTOLOGIA – Anatomia microscópica de tecidos e órgãos; estudos dos tecidos orgânicos. E HISTOGÊNESE – (Embriol.) – Formação e desenvolvimento dos diferentes tecidos do embrião.

Agora vamos trocar em miúdos. Ou ser reducionista mesmo, já que o trabalho da gente muitas vezes – quase sempre – é reduzir o trabalho alheio em algumas poucas definições, em sua maioria equivocadas. Pois aqui vai mais uma: imagine se Thom Yorke tivesse nascido no Brasil, ou formado o Radiohead após ser influenciado pelos ritmos brasileiros. O Nuda é mais ou menos isso.

Lançando mão de um lirismo assustador, com letras que beiram a perfeição, o Nuda parece uma banda formada por gente que leu muito, e no caso não se limitou “apenas” à leitura de partituras. Alguns exemplos: em “Colibrilho (Gota e Muda)”, em que uma guitarra bem fase Radiohead-The Bends se faz traduzir em MPB, extrai-se o seguinte verso: “eu quero o brilho de um colírio clarear o sou do ser do vão de ver”. E a coisa não fica “só” nisso.

Em “Deus, Às Estéticas”, canção que reúne no mesmo “mói” (palavra tão cara ao grupo) Jair Oliveira e novamente Thom Yorke, eles dizem: “e ela passa devagar no compasso de me ter a divagar/ puta e santa em furta cor de invadir o mais furtivo invasor/ com ela eu sambo em qualquer tom cinza-azul ou Tom Jobim”. Já deu para perceber que não estamos diante de uma banda qualquer, mas de um grupo que trabalha suas letras com tanto carinho como trata de seu som.

Se suas letras são sofisticadas, sua música é ainda mais difícil de ser classificada. Porque a generalização, o recorte de um Thom Yorke abrasileirado ainda é muito pouco para traduzi-la. Aí vem “Duns”, para confundir ainda mais com um baião com nuances de (de novo!) Radiohead. E outro acerto literário, talvez o maior deles: “do par, a parte que te cabe não me cabe tocar não/ pra que de arrebanhar o vasto se eu já desvendo encanto à imensidão”.

Todas as composições são da dupla Rapha (voz e guitarra) e Scalia (bateria), e é de fato assustador o manancial de repertório lingüístico e musical que o Nuda apresenta nos pouco mais de 22 minutos do EP. E, como eles não partilham da cartilha da obviedade, optam por abrir o disco com sua faixa mais fraca, “Alumia”, que pode perfeitamente afugentar o ouvinte da viagem que seria prolongar a audição deste “Menos Cor, Mais Quem” em todo o seu percurso. Deixe passar a estranheza que causa a faixa de abertura e se permita se aventurar pelo todo.

Afinal, o Nuda não é apenas um Thom Yorke brasileiro. É também… Ou seja, para decifrá-lo, seria necessário um exercício de histologia e de histogênese. Às vezes é melhor aproveitar sem tentar decifrar…

Cotação – ótimo

www.myspace.com/sitionuda

Nuda

RESENHA: Nação Zumbi - Fome de Tudo

Nação Zumbi - Fome de Tudo - 2007 - Deckdisc

Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007/Deck disc)
Escute: Nação Zumbi - Bossa Nostra

Escute: Nação Zumbi - Nascedouro

É impressionante a capacidade que alguns artistas têm de se superar a cada trabalho, quando tamanha tarefa já parecia impossível, quando eles davam a nítida impressão de que já haviam alcançado seu limite criativo. Talvez o exemplo mais emblemático dessa “lei do eterno retorno da superação” seja o Radiohead, que consegue se reinventar desde 1997, quando o planeta inteiro achava que eles tinham alcançado o ápice (a jamais ser superado) com o genial Ok Computer.

Com a Nação Zumbi a história é semelhante, se bem que eles batem na trave em Fome de tudo. Se a primeira metade do álbum consegue deixar o ouvinte estupefato e superar o já “insuperável” Futura, a coisa desanda da metade para o fim, chegando às vezes, infelizmente, ao cúmulo da chatice.

Primeiro trabalho da banda lançado pela sua nova casa, a Deckdisc, Fome de tudo tem produção luxuosa de Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, para ficar em um só nome) e revela como Jorge Du Peixe cresceu como letrista (“a fome tem uma saúde de ferro”, extraída da faixa Fome de Tudo, é só um dos exemplos da ótima construção textual de Du Peixe aqui). Em compensação, seu vocal continua monocórdio e por vezes cansa por não utilizar a voz de outras formas.

Se a banda explode em criatividade e peso em Bossa Nostra e Inferno (melhor composição do disco, com participação discreta e certeira da cantora Céu), se perde em alguns momentos tediosos, como Toda Surdez Será Castigada,- parceria com Junio Barreto - que dá a impressão de uma música estática, que não sai do lugar.

Já o trabalho de guitarra de Lúcio Maia está ainda mais hermético (e aqui pode-se dizer que de um hermetismo um pouco mais acessível, se é que isso é possível) do que em Futura, e se revela um dos grandes trunfos de Fome de Tudo. É o caso de A Culpa, cuja guitarra de Maia aparece primeiro suingada e convencional, para depois brincar com distorções. Já Originais do Sonho trafega no território do samba-eletrônico-psicodélico, carregada de efeitos e de múltiplos significados. O típico exemplo de faixa que transita em dois territórios paralelos: o da genialidade e a do cansaço provocado por ela.

Em entrevista coletiva na véspera do PE Music Festival, Jorge Du Peixe disse que “Fome de Tudo” era um trabalho bem pop e acessível. Não acredite nisso. De pop o disco tem bem pouco. E, de acessível, menos ainda. Na verdade a Nação Zumbi vem trilhando um caminho louvável, conseguindo se reinventar desde a morte de Chico Science. Com “Fome de Tudo” eles parecem quebrar todas as barreiras, para o bem e para o mal. No fim das contas, a melhor definição aqui é: metade genial e metade chato, com a balança pendendo mais para a genialidade. Aliás, quantas bandas hoje conseguem fazer um disco tão dicotômico e capaz de confundir (e confundirá muito, acredite) público e crítica?

Escute o todo e tente esquecer as duas metades do trabalho. Mas garanto que vai ser difícil separar as coisas. No fundo, a Nação Zumbi conseguiu o que todo artista almeja: confundiu ainda mais o que já era bem confuso. E extraiu muita beleza (e chatice também) disso tudo.

Cotação: Bom (4/5)

Nação Zumbi (divulgação)

RESENHA: Amps & Lina - Curva e Linha

Amps & Lina - Curva e Linha

Amps & Lina - Curva e Linha (2007/Independente)

Escute: Amps & Lina - Deja Vu

O Amps & Lina é, em uma palavra, uma banda “esquizofrênica”, no que o termo carrega de melhor quando o assunto é música. Ou seja, intriga, fascina, causa estranheza e às vezes até uma certa repulsa, tudo ao mesmo tempo. “Curva e Linha” é o típico álbum que não pega de primeira (perdão pelo clichê), e merece ser ouvido mais de uma vez antes de uma conclusão definitiva, pois alguns detalhes estão escondidos debaixo da voz angustiada e propositalmente tediosa de Luciana Medeiros e dos violinos mórbidos de Lorena Arouche.

O álbum abre com o tema-título, que começa com pogramação eletrônica e com a voz monocórdica de Luciana. Quando a gente pensa que a faixa se resume apenas a isso, vem efeitos tipo Radiohead fase Kid A e a banda inteira explode depois num belo ritual de melancolia, onde o violino passa a dar as cartas no meio da canção, que vai num crescente acachapante até o final.

“Deja Vu” oferece uma bela levada de guitarra em seu início, e a coisa fica um pouco mais pop, mais “acessível”. Mas a melancolia continua a ser a guia-mestre deles, que se saem muito bem nesse caminho. O violino, aqui, aparece primeiro só como detalhe, e depois explode junto com toda a banda.

“Quanto Custará” envolve melodia eletrônica, a voz que exala dicotomia de Luciana (fascina e causa agonia ao mesmo tempo) com violino em primeiro plano e uma letra tristíssima. De doer de tão bonita, embora não seja uma beleza fácil de ser apreciada. O violino dá um tom de morte que parece estocar o coração do ouviente com seu arco.

“Vôo a ti” vem mais convencional no início, mas aqui as aparências também enganam. Logo vem aquela voz (sabe-se lá saída de onde), cutuca, incomoda, e quando tudo parece absolutamente inacessível, entra a banda com uma tremenda pegada pop, que vai numa levada hipnótica e envolvente até determinado momento, para depois confundir tudo novamente.

O disco é encerrado com “De que canto partiu”, título bem apropriado para algo tão difícil de definir.

“Curva e Linha” é um trabalho delicado, ousado, calculadamente frio e muito interessante. Vai desagradar muita gente, mas deve encontrar seu público entre fãs de Radiohead, Joy Division e My Bloody Valentine, embora se pareça muito pouco com tudo isso. Ou seja, além de tudo, o amps & lina tem identidade. Ouça. Depois ame ou odeie. Aqui sequer há espaço para um muro para poder ficar confortavelmente em cima dele. Ele (o muro) foi, literalmente, destruído.

www.myspace.com/ampslina

Cotação: Excelente (5/5)

Amps & Lina (divulgação)

RESENHA: Júlia Says

Eis uma bela e novíssima surpresa a surgir absolutamente do nada. Na verdade “nada” é exagero, pois quem está à frente da empreitada é o já conhecido Paulo André, líder da bem-sucedida A Ponte. Só que aqui, no Júlia Says, o rapaz ousou ainda mais e conseguiu superar sua “banda principal”. A intenção parece ser confundir mais do que explicar. E o disco, dedicado às ambiências eletrônicas com overdoses de MPB e de rock (não, não é clichê), envolve o ouvinte do início ao fim do álbum.

O disco abre com “Eis a Canção”, música um tanto vacilante em que se sobrepõe à voz ainda frágil de Paulo André um violão bossa-nova com texturas eletrônicas. Mas o interesse real está na letra, que descreve o processo de inspiração e feitura da composição.

A partir daí a coisa vai num crescente sem fim. “Ondas e Barcos (Indicando a Direção)” é levada num groove com destaque para teclados e baixo, que dialogam com a música negra dos anos 70, em especial com a trilha sonora de “Shaft”.

“Barulho (água)” é o tipo de música que instiga a pergunta: quem são esses sujeitos? O grande segredo dela está exatamente em sua falsa simplificação, algo que gruda no ouvido e que prova que para se fazer boa música, na maior parte das vezes, é preciso apenas uma boa idéia na cabeça e deixar o resto fluir naturalmente.

Mas o melhor mesmo vem com “Mohamed Saksak”, que, em ritmo alucinante, conta a história de um homem-bomba, partindo de suas origens até as supostas manchetes dos jornais provocadas por ele. Coisa fina que melhora muito com o passar dos minutos.

Júlia Says, o álbum, é encerrado com “Aos Segredos Guardados Pelo Futuro”, em que a guitarra grita mais alto em meio à levada de cunho eletrônico e com pitadas de samba.

Outro detalhe importante é o projeto gráfico. O CD imita o formato de separação de faixas de um vinil, e vem envolto num plástico tal como as bolachonas que comprávamos em outros tempos.
Um disco cheio de nuances e detalhes fragmentados, que vale muito a pena ser escutado. Resta saber se funciona tão bem ao vivo. Até aqui, trata-se da grande revelação de 2007.

cotação - ótimo

link:
www.myspace.com/juliadisse
Julia Says (divulgação)

RESENHA - Os Medonhos: …me tornei outro ser

Os Medonhos deram o “azar” de passar pelo menos dois anos na sombra do seu primo rico, o The Playboys, e o vocalista Thiago Rabêlo acabou ficando mais conhecido na cena como o “sexto playboy” do que como o bom frontman que é.
Banda punk igualmente talentosa e de temática diferente da de seus parentes burgueses, o grupo lançou há pouco o primoroso “…Me tornei outro ser”, disco para quem gosta de filme b, Zé do Caixão e do bom e velho crossover. São onze porradas que mesclam o que há de mais fascinante no universo trash com as letras mais hilárias que alguém já escreveu sobre o tema. Alguns exemplos da demência dos rapazes: “Faremos o terror diante de seus olhos, queremos é comer miolos”, ou “Eu quero desenterrar a minha amada, que matei esquartejada”. E por aí vai. O grande trunfo deles é justamente o de se despir de qualquer pretensa seriedade. O negócio é ser demente mesmo, e fazer um som dos infernos com isso. “Onde está o seu poder?”, por exemplo, pega emprestado o que de melhor já foi feito pelo Ratos de Porão: porradaria sem dó nem piedade, daquelas faixas que atropelam o bem-estar e o sossego de qualquer ouvinte. Não é nada inovador, nem tampouco criativo. Mas é de dar inveja à banda do Rogério Skylab. E, no fim das contas, punk é, sempre foi e sempre será a coisa mais batida e datada do mundo. E é aí que reside toda a sua graça. E graça é uma qualidade que Os Medonhos têm de sobra. É uma das bandas mais autênticas de Pernambuco, pois continua fazendo o que sempre se propôs a fazer:punk simples, direto, objetivo e sem frescuras. Só que agora o faz como novo gás, mais maturidade (no som, óbvio) e com veias punks que andam meio sumidas do mapa aqui no Recife. Vai ver que elas (as veias) foram comidas pelos Medonhos…

Cotação - ótimo