Os Medonhos deram o “azar” de passar pelo menos dois anos na sombra do seu primo rico, o The Playboys, e o vocalista Thiago Rabêlo acabou ficando mais conhecido na cena como o “sexto playboy” do que como o bom frontman que é.
Banda punk igualmente talentosa e de temática diferente da de seus parentes burgueses, o grupo lançou há pouco o primoroso “…Me tornei outro ser”, disco para quem gosta de filme b, Zé do Caixão e do bom e velho crossover. São onze porradas que mesclam o que há de mais fascinante no universo trash com as letras mais hilárias que alguém já escreveu sobre o tema. Alguns exemplos da demência dos rapazes: “Faremos o terror diante de seus olhos, queremos é comer miolos”, ou “Eu quero desenterrar a minha amada, que matei esquartejada”. E por aí vai. O grande trunfo deles é justamente o de se despir de qualquer pretensa seriedade. O negócio é ser demente mesmo, e fazer um som dos infernos com isso. “Onde está o seu poder?”, por exemplo, pega emprestado o que de melhor já foi feito pelo Ratos de Porão: porradaria sem dó nem piedade, daquelas faixas que atropelam o bem-estar e o sossego de qualquer ouvinte. Não é nada inovador, nem tampouco criativo. Mas é de dar inveja à banda do Rogério Skylab. E, no fim das contas, punk é, sempre foi e sempre será a coisa mais batida e datada do mundo. E é aí que reside toda a sua graça. E graça é uma qualidade que Os Medonhos têm de sobra. É uma das bandas mais autênticas de Pernambuco, pois continua fazendo o que sempre se propôs a fazer:punk simples, direto, objetivo e sem frescuras. Só que agora o faz como novo gás, mais maturidade (no som, óbvio) e com veias punks que andam meio sumidas do mapa aqui no Recife. Vai ver que elas (as veias) foram comidas pelos Medonhos…
Zé Cafofinho e Suas Correntes - Um Pé na Meia, Outro de Fora (2006/Independente)
A música pernembucana, nas últimas duas décadas, vem se especializando na fina (?) arte de universalizar o regional. Ou de regionalizar o universal, fica ao gosto do freguês. Assim sendo, temos a Zona da Mata como ponto de partida, e seu poder de alcance parece ilimitado.
Pois há tempos que, neste sentido, não aparecia um trabalho tão coerente como o de Zé Cafofinho. Em treze faixas, ele adiciona jazz ao samba de terreiro, pitadas de música árabe às rabecas, cordas regionais de ótimo gosto e um resultado final que, ao invés de causar estranheza, fascina. E fascina justamente pela naturalidade da coisa. Nada parece forçado. Tudo acaba combinando bem, coisa difícil de se atingir quando os ritmos nordestinos dialogam com a (pós) modernidade.
Os metais acabam sendo um dos grandes responsáveis por isso, dando um acabamento cool ao som de Zé Cafofinho.
Impossível destacar uma só faixa, pois temos aqui a sensação de se tratar de uma obra fechada, ou seja, o todo faz mais sentido do que as partes separadas.
Artista costuma ficar puto da vida com tal definição, mas não é um disco para qualquer ouvido, e não pega na primeira audição. É intelectualizado, mesmo tentando desesperadamente soar popular. Mas aqui isso também vira qualidade, e não defeito. As letras também ajudam a denunciar um tratamento acadêmico, poético, caso de “Cabotagem”.
No fim das contas, Um Pé na Meia, Outro de Fora só não é perfeito por um velho e conhecido motivo aqui em Pernambuco: a voz de Zé Cafofinho não é das melhores, e por vezes sua desafinação chega a incomodar. Mas talvez a intenção seja incomodar mesmo.
Escute: Zé Cafofinho e Suas Correntes - Campo Grande
Em tempos primórdios, o ex-editor da Bizz, Emerson Gasperin, me disse, a respeito de uma revista que colocava no mercado na época, que não gostava da palavra “projeto”, pois ela muitas vezes passava a falsa idéia de algo feito sem esmero, preguiçoso, relapso, o famoso plano b. Pois tal definição não cabe aqui.
Fruto da união de integrantes do Pecapta, Nor-k e do Sick, o Project 666 esbanja peso e competência em doses cavalares, com destaques para os vocais de Rodrigo Colaço e da batera firme de Eduardo Martins. A banda assimilou o que de melhor foi feito em Pernambuco no thrash recente, como Sick e Insurrection Down. E o mais bacana é que, por mais universal que seja o gênero, eles estão formatando uma cara pernambucana ao estilo, sem apelar para alfaias e manguezais. Algo que o Hanagorik inaugurou na década passada.
Mas o mais importante aqui é perceber que nas apenas três faixas deste EP eles exploram coisas diversas como grindcore, thrash, pedaleira dupla, Slayer e afins, dando um toque pessoal e até original a um estilo que parec(ia)e não ter mais o que evoluir.
Pode se que nâo dê em nada. Talvez não passe de um “project” e morra nisso mesmo. Mas, definitivamente, temos aqui algo novo e que pode influenciar futuras gerações.
O EP ainda vem com uma seda de baseado encartada, mas o RecifeRock! manteve o profissionalismo e não a usou durante as audições.
Caso você não seja profissional…
Lúcio Maia fez um álbum estranhamente belo. À frente do projeto Maquinado, cercou-se de amigos para gravar antigas idéias que soariam dissonantes em um álbum da Nação Zumbi. A pergunta aqui é: precisava? Não. Lúcio já é um dos principais nomes da guitarra no Brasil desde a década passada, chegando a ser responsável pelas guitarras do álbum de estréia do Soulfly, não à toa o melhor trabalho da banda de Max Cavalera. O que leva então um guitarrista consagrado de uma banda consagrada lançar um álbum solo? Explorar elementos que não cabem em sua banda, oras. E é engraçado, pois a guitarra é o instrumento que menos aparece no disco. Ela fica quase sempre ao fundo, cheia de efeitos e apenas servindo de coadjuvante para que outras facetas brilhem. Assim sendo, é bom saber que boa parte dos quase 40 minutos de Homem Binário segue a fórmula “eletrônica-cabeça-distorcida-com-elementos-brasileiros-e regionais”. Tinha tudo para soar tremendamente chato (e por vezes soa mesmo), mas as batidas são envolventes e a criatividade acaba dando as cartas na maior parte do tempo. O disco é dividido em duas partes. Se a segunda pende para o cabecismo eletrônico/exótico, a primeira é mais visceral e interessante. Alados é uma ciranda psicodélica com participação de Siba. Arrudeia, que abre o disco, é trilha sonora de videogame transformada em arte. Tá Tranqüilo lembra o Planet Hemp dos tempos de Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára. Sem Concerto é a mais simples, franca e direta, e justamente por isso é a melhor do disco. Agora, curioso mesmo é O Som, em que 70% da Nação participa. Não fosse o vocal tão característico de Jorge du Peixe, e dava até para dizer que se trata de outra banda.
No fim das contas, Homem Binário servirá para dar mais respaldo artístico ao guitarrista. É capaz de entrar na trilha sonora de algum filme. Mas dificilmente terá o mesmo alcance de sua banda de origem. Se o som da Nação já é considerado hermético, o do Maquinado não fica atrás. Era pedir muito um álbum acessível de quem se acostumou a se equilibrar nas linhas tortas do pop, do conceitual e do popular.
O disco de estréia do Mellotrons sofre de um problema curioso: é “apenas” o registro da primeira fase da carreira da banda. O Mellotrons de hoje já não tem mais nada a ver com o grupo que toca no álbum. Eles mudaram o estilo e trocaram as referências. Agora, a banda canta em português e bebe na fonte do mineiro clube da esquina. Qual o problema? A princípio, nenhum. Mas a verdade é que o disco já nasce com sabor de águas passadas. Será difícil ouvir ao vivo o mesmo Mellotrons do primeiro disco. Aí fica a dúvida se tal atitude é corajosa ou equivocada. Porque o disco beira a perfeição. Bem tocado, gravado e arranjado, o CD traz o grupo apostando nas microfonias e distorções como instrumentos a mais em sua formação. E as influências de outrora estão todas ali: My Bloody Valentine, Radiohead, Smiths e Nada Surf. Tem pinta de disco gringo, e talvez por isso eles tenham deixado essa fase para trás. Recife (o Brasil) ainda é cruel com esse tipo de som e com quem canta em inglês. E é engraçado, pois temos aqui o melhor disco de estréia de uma banda pernambucana desde o primeiro álbum do Vamoz! A vantagem de levar quase uma década para entrar em estúdio é que quando você o faz já está com repertório amadurecido e sabendo exatamente o que quer. Embora aqui seja o caso de dizer que o álbum passou do seu tempo, já que a banda adotou outra linha estética. Apesar do problema temporal, o que já era muito bom ao vivo ficou ainda melhor em disco. Evening ganhou o auxílio de palmas e ficou mais pesada. You and I e Slow Motion cresceram assustadoramente em estúdio. E a opção de jogar camadas noise em partes mais melódicas reforça a saudade que não sabemos ainda ao certo se devemos sentir.
Enfim, um disco perfeito de uma banda que não existe mais. Ou existe? O que ainda irrita um pouco no Mellotrons é uma certa atitude indie/blasé. A capa é ininteligível. Não dá nem para ler direito o nome da banda. O encarte também não ajuda. Quem não conhece o grupo será obrigado a adivinhar o nome das músicas. Apenas um “mellotrons” minúsculo enfeita a lateral do disco. Ok, é bonitinho, é diferente e tal, mas é também de uma inutilidade gritante. Se a intenção era não vender nenhuma cópía, acertaram em cheio. Uma pena, pois a música deles deveria ser compartilhada com todos.