Archive for Tapa na Orelha

Tapa na Orelha - Pernambuco sem Textículos - parte 2

Foi um leitor que deu a dica: existe uma página onde é possível baixar o segundo disco do Textículos de Mary, “Bissexuástica”, de 2003. Lá também pode ser encontrado vasto material sobre a banda.

Segue o link:

http://sombarato.blogspot.com/2007/07/textculos-de-mary-e-banda-das-cachorra.html

Textículos de Mary e a banda das cachorra - Bissexuástica[2003]

“Renascidos do inferno da indústria fonográfica, não sem seqüelas psicológicas como esperado, mas como sombras ressurgidas na noite; estão de volta para a “cena recifense”, após exílio e ostracismo, os Textículos de Mary & a Banda d’As Cachorra. Agora apresentando, sua já mastigada segunda fase, Bissexuástica. Onde a diversão torna-se sintoma e a doença, um processo massificado e totalitário: mídia, sociopatia e nazifascismo mascarados de discurso de vítima. O êmbolo da seringa no retorno da pressão: no que agora chamaremos de hittler-rock”.

Tapa na Orelha - Pernambuco sem Textículos

Toda vez que escuto o álbum “Textículos de Mary e a Banda das Cachorras” bate uma sensação de incredulidade, de indignação. Como uma banda tão boa e ousada morreu tão jovem e com tanto ainda por realizar? Decidi então republicar aqui um artigo que escrevi para a revista Galpão do Rock, em novembro de 2005. Segue o texto abaixo na íntegra.

Pernambuco sem Textículos

Há um ano o rock pernambucano perdia boa parte de sua graça, irreverência, rebeldia, inteligência e transgressão, palavras que combinam tão bem com o universo rock n’roll.
No dia 29 de julho de 2004, em uma noite inusitada no Teatro do Parque, uma das bandas mais interessantes a surgir no país decidiu interromper de forma precoce a sua carreira. Sem encontrar espaço para tocar na cidade, o Textículos de Mary preferiu encerrar suas atividades. Cansou do amadorismo e da caretice que imperam em Pernambuco. Encheu o saco de ficar sem receber cachê, do público que não entendia sua proposta e de todas as portas fechadas durante os pouco mais de quatro anos de história. E que história!

O Textículo de Mary era um grupo liderado por três homossexuais assumidos. Tocavam com fantasias esdrúxulas e simulavam orgias em suas apresentações. Visualmente, era uma espécie de Kiss gay. Por conta das performances para lá de ousadas, o grupo sempre dividiu opiniões. Os mais bem-humorados encaravam tudo como pura e simples anarquia, assim como o rock, de maneira geral, deve ser encarado. Já a ala conservadora, predominante em Pernambuco e no restante do país, achava aquilo a mais pura sem-vergonhice, safadeza, coisa do demo. Nem uma coisa nem outra.

A banda tinha uma proposta diferente: chamar a atenção para o desconhecido através de recursos teatrais. A música era apenas um dos múltiplos aspectos de um projeto multimídia que acabou não vingando. Pelo menos deixaram um registro sonoro. Em 2002, foi lançado o impecável “Textículos de Mary e a Banda das Cachorras”, disco que saiu pela Deckdisc e contou com a produção de Rafael Ramos. Em 12 faixas, Chupeta (vocais), Silene Lapadinha (vocais), Lollypop (vocais), Bambi (guitarra e vocais), Dúbia Keitesuelen (baixo), Scarlet Cavalera (bateria), Loiranêgra (percussão) e Kaiadroga (guitarra) destilam humor, inteligência, ironia e sarcasmo. Brincam com o preconceito gerando ainda mais preconceito. Falam de temáticas gays e contam histórias que beiram o surrealismo, como a do travesti Natasha Orloff, que foi educado em um colégio stalinista de linha militar na antiga União Soviética e se prostituía para garantir o sustento na atual Ucrânia capitalista, que um dia fora república da antiga URSS.

Por um breve momento, o rock foi mais rock do que nunca em Pernambuco. Até o dia em que o fantasma do conservadorismo pôs fim à uma banda que sabia contar histórias e que fez história.

Tapa na Orelha - Abril pro Rock volta a ser pro rock

Fazia tempo que o Abril pro Rock não apresentava uma programação que fizesse tanta justiça ao seu nome. Das 23 atrações anunciadas (fora as duas que serão selecionadas pelo Link Musical), apenas duas (Céu e Vitor Araújo) não transitam no universo rock – se bem que Vitor tem a ousadia e atitude de romper com os padrões impostos pelos Conservatórios da vida, o que faz dele um cara de personalidade roqueira -.
Em números, isso significa que a programação deste ano é 92% roqueira, contemplando quase todas as subdivisões do gênero.

Duas coisas devem ser comemoradas muito:
a) as escalações de New York Dolls e do Bad Brains, uma lenda viva do punk e outra do hardcore. Só o Bad Brains tem nas costas 31 anos de carreira. Praticamente inventaram um estilo. E os Dolls são uma espécie de últimos sobreviventes de uma geração que rendeu nomes como Television, Ramones, Talking Heads, Blondie e etc. Será histórico vê-los tocar no Recife.

b) a vinda de Helloween e Gamma Ray. Apesar de detestar power metal / metal melódico, só um tapado completo – tapado eu até sou, mas completo, ainda não! - não reconhece a importância dessas duas bandas alemãs.

Também acertaram em cheio na escolha das bandas locais. Algumas delas, como Vamoz! e Project 666, já eram apostas antigas minha. E, entre os nacionais, os destaques vão para Autoramas, Pata de Elefante e Lobão. Este último talvez seja o único nome nacional que consiga lotar um evento roqueiro que fuja do mais-do-mesmo estabelecido por Charlies, Nandos, Rappas e Jotas da vida.

Duas dicas: abram o olho para a neozelandesa The Datsuns e para o excelente Superguidis, banda gaúcha nova que possui dois discos sensacionais no currículo: “Superguidis” (2006) e “Amarga Sinfonia do Superstar” (2007).

Até mesmo os “velhinhos” gaúchos Wander Wildner e Júpiter Maçã caíram bem no contexto geral, além de se tratar de dois nomes com público relevante por essas praias.

A única bola fora mesmo foi Céu, o patinho feio e totalmente deslocado e descontextualizado do festival. Mas nada é perfeito e programação nenhuma no mundo agradará 100% a todo mundo.

No mais, meu amigo, pagar cinquentinha (vinte cinco estudante) para ver NYD e BB numa única noite, e oitentinha (quarentinha estudante) para Helloween e Gamma Ray é uma pechincha das boas. Pode até não sobrar muita coisa pra cerveja, mas roqueiro que é roqueiro sempre dá um jeito!

Editado 06.03 / 17h15

Tapa na Orelha - Ah, as programações…

Depois de me permitir uma semana de férias, sem ler jornal ou acessar o site, sou bombardeado com as mais diversas notícias. Entre elas, as programações do Rec-Beat e do Pré-Amp.

Comecemos pelo Rec-Beat. Eu definiria assim: vai ter o show do Devotos, ponto. Acho importante para o festival registrar as comemorações de vinte anos de estrada deles. Fora isso, de brinde, ainda terá Móveis Coloniais de Acaju e Pato Fu. E a curiosidade para ver Ras Bernardo (primeiro vocalista do Cidade Negra, quando esta era ainda uma banda interessante) e Lucy and The Popsonics. No mais, a programação de 2007 era mais consistente. Mas jornalista costuma ter uma visão diferente da do público. Para nós, que cobrimos a área, quanto mais nomes desconhecidos melhor, pois às vezes vemos um show de uma única banda umas dez vezes por ano. Sem contar que o evento rola no carnaval, ou seja, quase todo mundo que sobe ao palco já entra com o jogo ganho, uma vez que o público quer ouvir qualquer coisa que o faça continuar no ritmo da folia. E este qualquer coisa pode vir em ritmo de tango, rock, reggae e por aí vai. Caso tivesse que cravar uma nota para a programação deste ano, ela seria um 7, muito em função do Devotos.

Agora o outro lado da moeda. O que nasce errado morre torto, já diria o poeta. Assim foi com o PE no Rock 2007 e com sua tentativa pérfida de ressurgir via o malfadado Femupe. E assim está sendo com o Pré-Amp 2008. A única coisa de positiva que posso tirar deste evento é a volta dos Cachorros. No mais, a própria programação fala por si. Trata-se do reflexo no espelho de algo que tentou ser feito às escondidas, sem transparência. Esteticamente, é apenas uma programação muito, mas muito fraca mesmo. O problema maior é moral mesmo. Assim como mancharam o nome de um festival simpático como o PE no Rock, avacalharam com uma proposta anteriormente séria como o Pré-Amp festival. Não me sai da cabeça aquele velho refrão do Léo Jaime, um que diz que “Nada mudou”. Nos casos do PE no Rock e Pré-Amp, mudou sim. E para muito pior!

Tapa na Orelha - Apostas para 2008.

É complicado fazer previsões. Sobretudo se o assunto for música ou futebol. Mas não posso deixar de fazer as minhas, mesmo sabendo do risco de alguma banda acabar antes do final do primeiro semestre ou de alguém se converter e criar um grupo gospel até lá. Enfim, de tudo que vi e ouvi em 2007, eis as minhas apostas para 2008:

Amps & Lina: além de ter relançado o excelente Curva e Linha, a banda se mostrou madura ao vivo e no auge de sua criatividade.

AMP: banda formada pelos ex-Astronautas Dudu (baixo) e Djalma (guitarra). Uma maçaroca sonora ambulante tipo Queens of The Stone Age, com uma pegada furiosa e detentores, de longe, do título de melhor show de estréia que já vi de uma banda pernambucana.

Júlia Says: lançou um belo ep e fez um excelente show no Pátio do Rock. Resta saber se vai suportar a pressão de tanto falatório em cima dela em tão pouco tempo de carreira.

Mormaço: um dos melhores shows do ano, testemunhado por quase ninguém, as cinco da matina no espaço aberto do Armazém 14. Foi o suficiente para perceber talento e futuro garantido no cenário local.

Project 666: quem melhor faz metal hoje em Pernambuco. Sem contar que são organizados e extremamente dedicados. Vão continuar fazendo barulho em 2008.

Risko h.c.: Moleques que gostam de Ratos de Porão e de Mukeka di Rato, seguem a linha dos mestres citados e possuem boas chances de azucrinas os ouvidos alheios durante o ano. Altamente recomendável.

Tabacos de Guevara: Não dá para ignorar uma banda que compõe uma música intitulada “O Meu Amigo Imaginário Não Gosta de Mim”. Letras irônicas e influências que vão de Vanguart até Chico Buarque.

Continuo apostando em:

Fiddy: Impressionante como toda banda que debuta no Abril pro Rock dá uma relaxada depois, como se já tivera atingido o ápice de sua carreira e não tivesse mais nada de relevante a fazer. Não é assim que funciona. Se acordarem, ainda dá um bom caldo.

Monomotores: idem.

E vocês? Apostam em quem?