Tapa na Orelha - Os Melhores shows que não aconteceram - parte 1
Imagine como era Recife há 16 anos. Para facilitar sua vida, tente visualizar como era e o que oferecia a cidade aos apreciadores de rock em 1991. Naquela época, Paulo André, do Abril pro Rock, era dono de uma loja de discos em uma galeria no bairro das Graças, mais precisamente na Rua Amélia.
O balconista era Cristiano Ameba, que na época já envergava a guitarra do Paulo Francis Vai pro Céu. E eu era um assíduo freguês. Lá, consegui comprar uma edição limitada para o Rock in Rio 2 de Arise, do Sepultura, vinil com arte tosca e sem a inclusão de Orgasmatron. A banda acabara de cravar seu nome na primeira divisão do metal mundial, e, para minha surpresa, foi anunciado um show deles no Recife, no Sport Clube.
Shows dessa espécie era uma raridade por aqui. A gente tinha que se contentar com o trio Legião-Titãs-Engenheiros. O anúncio do show do Sepultura foi um alento. A banda havia estourado mundialmente, e Recife finalmente fazia parte da turnê nacional deles. Eles haviam tocado em 1987 em Caruaru, mas pouca gente sabia quem era o Sepultura na ocasião.
Comprei meu ingresso com uma semana de antecedência, e esbarrei no primeiro problema: não tinha com quem ir. Meus amigos não curtiam rock, muito menos metal. Um primo meu salvou a pátria, e me apresentou uns conhecidos dele de Olinda que já curtiam o Sepultura naquela época. Éramos quatro. Escutávamos as fitinhas de Arise gravadas enquanto o ônibus nos levava de Olinda até o Sport. O ônibus inteiro parecia olhar para aqueles quatro cabeludos como se fossem alienígenas, marginais, loucos ou bestas quadradas. Ou tudo isso. Descemos longe, e andamos um bocado até chegar ao local.
Evangélicos distribuíam panfletos com a letra de “Starway to Heaven”, que tentavam fazer uma ligação bizarra entre os versos do Led Zeppelin com a volta do demo. A noite prometia.
Me encaminhei para a rampa de acesso, quando percebi um grupo de cabeludos descendo de cara fechada. “Nem suba”, alertou um deles. “O Sepultura não veio”. Fiquei atônito. “Você está brincando. Eu vim de Olinda só para ver o show”. “Olinda?”, riu um deles. “A gente veio de Natal, meu chapa!”. O clima começou a esquentar. A situação era a seguinte: o produtor do show não pagou o cachê da banda, e o Sepultura sequer arredou pé de Salvador, onde havia tocado no dia anterior. A solução encontrada foi das mais criativas. O público lesado tinha duas opções: a) pegar toda a grana do show de volta; b) reaver metade do dinheiro e entrar para ver os shows das locais Cruor, Arame Farpado, Eutanásia e mais uns nomes que me escapam agora. Resolvi encarar. Entrei, e já no primeiro show garrafas voavam de um lado para o outro, e o local parecia prestes a ser destruído. Me piquei dali, frustrado, com a grana da passagem de volta e metade do ingresso que foi utilizado na degustação de um sanduba vagabundo acompanhado de coca-cola. Quase choro…
Anos depois, em 1994, presenciei a formação oficial do Sepultura no Morumbi, no famoso show do Hollywood Rock em que Max Cavalera supostamente desrespeitou a bandeira nacional pisando nela. Foi a primeira apresentação do Chaos A.D. em solo brasileiro. O show foi perfeito. Antes do final matador com Arise, Max sentenciou: “quero ver o Morumbi fechado para reformas na segunda-feira”. O estádio tremeu. Foi lindo. E Max foi covardemente preso por “atentar” contra os símbolos nacionais. Inesquecível.
Mas, olhando para trás, me recordo com muito mais carinho do show do Sepultura no Recife. Aquele que não teve, e que justamente por isso virou lenda. Hoje me pergunto: onde estarão todos aqueles cabeludos e evangélicos que enchiam a frente do Sport naquela noite de 1991? Às vezes acho que foi tudo fruto da minha imaginação. Mas aí encontro um amigo meu, hoje corretor de seguros, cabelo cortado e tatuagens escondidas, a me dizer: “eu estava lá. Preferi voltar para casa e pegar toda a grana do ingresso de volta. Mas foi o melhor show que não fui na vida”. E o meu também.
